
(Arrigo Barnabé, "Pterodactilo Contemporaneus", 1992)
Tem início hoje o primeiro exercício para nossa oficina virtual Poesia feita de quê?, que tem como proposta a realização de poemas a partir de estímulos determinados. Nesta segunda, escolhemos três trabalhos fotográficos (posts abaixo) como possíveis desencadeadores do processo criativo. A idéia é que possamos não apenas produzir, mas comentar os próprios textos e os textos alheios. Para isso, basta se manifestar na seção destinada aos comentários. Não há prazo para postar, cada um pode produzir seu(s) texto(s) quando desejar. A utilização das imagens também fica a critério de cada um. É possível pensar em um poema a partir do conjunto, ou de cada uma em separado.Por trás de olhares misteriosos
Duas figuras femininas
Emaranhadas e entrelaçadas
Submetidas à paixão e ao desejo
Assim como o desespero que
Impera dentro de suas almas vazias
Há um lamento, uma compulsão
Seus rostos desfigurados por
Um excesso de atrativos que
Deveriam impulsionar a atração
Pelo menos assim lhes foi dito
Quem sabe mutuamente elas
Desejam algo que simplesmente
Não encontram por si só
Como se abrissem as janelas
Numa abstração irreconhecível
Para nós
(Eric Philip Sukys)

guia de viagem — gravurasexceto o corpo, piscina natural de dias quebrados, claustro e observação simultânea (clausura é somente ar, gotas azuladas) — cardo repele borboleta — pensou no ramo de azevinho (delicado entre amarelo verde vermelho) e na biblioteca de conchas, o coro do mar. talvez nenhuma imagem. à espera do hoxton car service, chaminés variadas. nenhuma delas uma presença real; nenhuma delas papoulas ao sol

Poema sobre uma fotografia
Assentou-se
entre livros,
os clássicos, os
contemporâneos,
livros
de toda sorte,
um e outro
casualmente
arranjado,
no colo um gato
rajado,
gato maltês,
para ser
fotografado
como um homem
de sabedoria,
mas
alguma coisa
no olho do gato o
denunciava:
não era Cortázar
a imagem sem centro
aSylviaPlath
a imagem
como ausência
sem centro,
sem voz,
sem cor,
sem um gordo cadáver
fala em solilóquio, faca
cega
que não corta mais seus signos
oh a irmã com os olhos cerzidos
entre as roseiras...
a doce irmã da infância...
quem de vós, em sã consciêcia,
desamordaçaria
Elfrangor?
I
Acordei pensando na “má consciência” que parece, muitas vezes, atormentar o meio literário do qual participo, direta ou indiretamente. Ia acrescentar ao verbo acordar o advérbio inexplicavelmente, mas logo percebi a falsidade retórica desse uso. Provavelmente eu possa rastrear as causas dessa reflexão matinal, que me faz adiar o início de uma rotina e que provavelmente atrasará minhas tarefas programadas para serem feitas hoje. Acrescento aqui estes detalhes triviais, porque são bastante elucidativos da minha condição privilegiada: trabalho em casa, em uma situação precária por ser temporária, mas ainda sim privilegiada mesmo quando consideramos apenas o fator do tempo que a maioria das pessoas perde em ônibus e trens lotados para conseguir chegar ao trabalho. Poder acordar de pijama, pegar um café na cozinha, passar pela área de serviço e adentrar o quartinho que é meu ambiente profissional permite que, mesmo quando eu pegue no batente às 8 horas, eu possa me deitar tarde. Por isso ontem, cansada, e detestando telejornais (o mundo cão convertido em pílulas), achei que não seria grave adiar meu sono para me inteirar de um resumo das notícias do dia. Aliás, para ser mais exata, o anúncio de um assunto específico me atraía, o canto da musa para este texto desengonçado: a arrecadação de impostos no Brasil bate seu recorde neste primeiro semestre. Talvez a diminuição da sonegação estivesse por trás disso e fosse algo a ser comemorado. Como não sou economista, porém, penso como leiga. E dada a ficções, estranhamente construí um pequeno roteirinho em minha mente, que juntava as sucessivas ações desastradas da nossa polícia contra a população, intercaladas pelas imagens (close nos sorrisos e olhares altivos) de Cacciola e Dantas.
Desembaraçada da censura, minha imaginação se tornou mais ousada, e criou um curta-metragem onírico mais interessante: um casal de alcoólatras idosos, moradores de uma favela, polemizava com policiais após presenciarem uma troca de tiros em frente à sua casa. A mulher, depois, aparecia exageradamente maquiada, vestida como uma diva e dizendo coisas muito pertinentes sobre nossa realidade social. Para não cansar os leitores, concluo com a imagem mais marcante do sonho: a cabeça dessa mulher rodando em uma máquina de assar frangos.
Desperta e com meu superego ativo e burocrático, tento dar conta racionalmente do que talvez já esteja para o leitor por demais claro. E, voltando à questão literária, procuro tornar menos desencontradas minhas divagações. A idéia da identidade nacional sempre esteve por trás da nossa literatura. Ao considerarmos os esforços de Anchieta para tentar sistematizar e facilitar o conhecimento da língua dos indígenas ou ao atentarmos para as descrições produzidas pelos viajantes europeus durante a colonização perceberemos como o anseio de identificação e construção do que é o Brasil sempre esteve no âmago de nossas Letras. Mesmo quando existiu a recusa à especificidade do nacional, esta esteve negativamente marcada por esse traço, haja vista, por exemplo, a recepção crítica da poesia concreta que a considera como um esforço para a superação dessa especificidade rumo à internacionalização. Idéias como juventude, progresso, mestiçagem, superioridade, euforia talvez tenham desembocado em algumas concepções-chave sobre o país: a irreverência e o caráter tolerante de nosso povo, que têm como seu negativo a falta de seriedade e a passividade.
Esses conceitos, tanto negativos quanto positivos, marcam nossa produção artística e intelectual de tal forma que, mesmo quando não estamos tratando dessas questões, elas estão lá, esperando de tocaia para atacarem. E quando me referi à “má consciência” de nossos escritores e críticos (me restrinjo ao meio literário por falta de conhecimento de outras áreas), estava considerando isto: se a falta de seriedade e a passividade estão sempre espreitando como negativos de nossas qualidades, cabe à elite intelectual estar sempre alerta, tentando compensar essas falhas com o siso e a combatividade. Mas me parece que nossas investidas apaixonadas por uma literatura consciente e crítica de nossas mazelas sociais sejam, hoje, quixotescas: como não simpatizar verdadeiramente com elas, quando sabemos que os monstros atacados são, na verdade, moinhos de vento?
II
Retomo aqui a expressão elite intelectual para explicar o que para mim significa isso. Talvez eu esteja enganada, mas me parece que temos uma elite intelectual e uma elite financeira, sendo que nem sempre os membros de uma fazem parte da outra. Por algumas relações sociais inferidas por todos, a cultura e a erudição podem ajudar um cidadão a se virar economicamente, mesmo que mal. Da mesma forma, privilégios econômicos facilitam o acesso à educação e à cultura. Mas nem sempre, como é de se imaginar, as coisas acontecem assim. A nossa elite intelectual, principalmente na área das Letras, não encontra um mercado tão receptivo aos seus saberes específicos, do mesmo modo que a maior parte da nossa elite econômica não está tão interessada em se “ilustrar” (ao menos, em um sentido restrito e humanista, que não considera a lista das lojas mais descoladas da Rua Oscar Freire como “ilustração”).
Daí que sobre para muitos homens e mulheres de Letras o asilo estatal. Nossos saberes e práticas que não encontram boa acolhida mercadológica ou respaldo social mais amplo sobram como “fortalecimento da identidade nacional”, como resquício de algo que já esteve na ordem do dia em diversos momentos históricos (seja no Segundo Reinado, quando ganha força o Romantismo, ou na Semana de 22, quando se configuram literariamente questões como a urbanização e a tentativa de superação da dependência cultural). A democratização, que significou também o sucateamento do ensino, nos mostra suas conseqüências. Muitos jovens – mesmo de classes sociais privilegiadas – foram, na melhor das hipóteses, educados como mão-de-obra barata. Se um contingente enorme da população não sabe redigir coerentemente suas idéias e tampouco compreende textos simples, imagine os mais abstratos e intrincados. Isto não significa que essas pessoas não possam refletir sobre sua condição social e exercer sua cidadania, simplesmente aponta que o ponto de comunicação e expressão desses indivíduos não é literário. Sob essa ótica, os muitos monstros que figuram em nossa literatura são apenas as pás dos moinhos, e o “buraco é mais embaixo”.
Exercer o papel de poeta, contista ou crítico é apenas uma de nossas facetas como cidadãos, que não nos exime de atuarmos em outras esferas. E com isso, estou próxima de concluir minhas deambulações. A literatura brasileira, sendo parte fundamental de nossa formação cultural e estabelecendo elos entre diferentes pontos de vista, gerações, nacionalidades, credos e, afirmando assim, sua importância histórica, não se restringe a isso. Da mesma forma que como poeta ou pesquisadora brasileira talvez não seja eficaz canalizar todas as minhas preocupações políticas em meus textos. Sou uma dependente do Estado – minha educação formal em Literatura, o dinheiro que recebo atualmente – tudo vem da aplicação estatal de recursos em bolsas de pesquisa e prêmios de incentivo à cultura. Estou, portanto, de rabo preso? O dinheirinho que recebo é uma esmola benevolentemente concedida para eu me calar? E mesmo que não me cale, como agir de forma eficaz e adequada, para que a poeta e estudante seja também uma cidadã à altura de "sua literatura"?
III
Meu pessimismo não se confunde com niilismo. E por isso mesmo faço uma tentativa, a despeito de meu caráter, de ser pragmática. Ao lado do combate intelectual, nós que temos a pena (ou a caneta, ou o teclado), não precisamos pegar
Sobre o rapaz recentemente vitimado pela polícia em um seqüestro relâmpago: qual o sentido de se perseguir e atirar num carro a esmo, se não é para “proteger o cidadão”? Se os policiais não estavam ali para proteger os cidadãos honestos (ou seja, pagadores de impostos), qual a sua função? Não seria melhor que eles ficassem sentados tomando água de coco, simplesmente observando a ação de criminosos? Talvez assim, o referido rapaz estivesse vivo, apesar de ter a conta bancária depauperada. Percebam que para desviar da demagogia, não preciso nem sair do meu lugar social e comentar os descalabros que a polícia (e, por conseqüência, o Estado) comete nos bairros de periferia. Em outra esfera (talvez num outro país dentro do próprio Brasil), encontramos as civilizadíssimas discussões sobre o tratamento adequado aos presos de colarinho branco. E que fique subentendido que minha intenção não é sugerir um nivelamento por baixo, mas justamente o contrário.
Talvez eu tenha sofrido algumas das conseqüências daquele empobrecimento do ensino a que me referi anteriormente, já que a coesão não é um ponto forte dos meus textos. Mas ficam aqui algumas linhas despontando de raciocínios mal cosidos, que talvez me assombrem desde a adolescência. As dúvidas sobre a pertinência de se trabalhar com literatura no Brasil, a sensação de impotência diante das indecências financeiras cometidas aqui e cinicamente noticiadas como coisa feia pero corriqueira, o complexo de inferioridade compensado pela mania de grandeza que provavelmente assola todo escritor e que nos faz acreditar no poder mágico de umas mal traçadas linhas. E a magia, dizem, é o último recurso do desesperado.
P.S. Se você chegou até o fim do texto, faz parte do grupo que defino como elite intelectual. Se não leu tudo porque achou chato, pobremente desenvolvido ou ficou simplesmente indignado com algumas de minhas afirmações, idem.
mergulho às avessas
o vir à tona de mãos dadas
com o medo
corte
súbito do azul e das imagens onduladas
contato com as superfícies
a dureza das pedras a dureza
do sal o desconforto
de saber-se a salvo


Tarja preta em karaoquê
ficção é meu Lexotan
palavra meu Prozac
vinho meu Valium
Reações adversas:
alergia a homeopatia
e bossa nova




não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível
imensidão
escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria
no escuro
a noite é uma sucessão de horas no escuro
não importa, nada importa
mais uma vodka
uma garrafa de bom vinho
uma carreira branca
mais uma canção a ser cantada
com a garganta trêmula
do sentimento que acossa
o blues magistral fatia a noite
emudecidas as conversas
resgata faces, humanas
é tarde
esgotam-se as horas
o corpo se ressente de ausências
crônicas as palavras caem
sobre o bloco
apanhado ao acaso
o corpo se ressente e cai
nos velhos braços jovens da noite
risos e mais uma dança
antes do amanhecer
sobre lençóis suspeitos
é a vida, diria depois
condescendamos

