Aviso:

Agora, a oficina online poesia feita de quê? possui um blog próprio http://poesiafeitadeque.blogspot.com/. Estão todos convidados: participem!

domingo, agosto 10, 2008

Segundo exercício - música 3




(Arrigo Barnabé, "Pterodactilo Contemporaneus", 1992)

Segundo exercício - poema de Eric Philip Sukys

Uma frenética melodia
Chega para mim como uma visita
Um piano tentando me dizer coisas indistintas
Gritando, sussurrando, alcançando memórias perdidas

Num primeiro momento não admito, mas ela faz certo sentido
Quando se equipara à confusão que vem me distraindo então

Há um fantasma sentado aqui ao meu lado numa sala
E para onde eu vou evoca um labirinto íntimo
Traz frustrações de novo para dentro
E parece sem tempo

Traz consigo tons distantes
Um silêncio um tanto barulhento
Desenha uma sintonia desconhecida
Mas não tão estranha quando penso no desejo
Ou no grande apego que não admito que tenho
Sinto-me um prisioneiro dessa visita
Imagem do que já fui ou fiz um dia
Em amores hesitantes

Então como numa oitava inesperada
Viro o rosto quando quando vejo que foi engodo
E um ideal descarado vê de perto uma estátua grega
Então supero e sigo em frente numa estrada não sinalizada

(Eric Philip Sukys)

Segundo exercício - poema de Victor Del Franco

(Victor Del Franco)

Segundo exercício - música 2




(Jards Macalé, "Meu Amor Me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata", 1972)

Segundo exercício - música 1




(PJ Harvey "Is This Desire?", 1998)

segunda-feira, agosto 04, 2008

Tem início hoje o primeiro exercício para nossa oficina virtual Poesia feita de quê?, que tem como proposta a realização de poemas a partir de estímulos determinados. Nesta segunda, escolhemos três trabalhos fotográficos (posts abaixo) como possíveis desencadeadores do processo criativo. A idéia é que possamos não apenas produzir, mas comentar os próprios textos e os textos alheios. Para isso, basta se manifestar na seção destinada aos comentários. Não há prazo para postar, cada um pode produzir seu(s) texto(s) quando desejar. A utilização das imagens também fica a critério de cada um. É possível pensar em um poema a partir do conjunto, ou de cada uma em separado.

Na próxima segunda, traremos ao blog novos estímulos. Até lá, mãos à obra!


Primeiro exercício - Imagem 1

(Erwin Olaf, Le dernier cri, 2006)

Primeiro exercício - poema de Eric Philip Sukys

Por trás de olhares misteriosos

Duas figuras femininas

Emaranhadas e entrelaçadas

Submetidas à paixão e ao desejo

Assim como o desespero que

Impera dentro de suas almas vazias


Há um lamento, uma compulsão

Seus rostos desfigurados por

Um excesso de atrativos que

Deveriam impulsionar a atração

Pelo menos assim lhes foi dito


Quem sabe mutuamente elas

Desejam algo que simplesmente

Não encontram por si só

Como se abrissem as janelas

Numa abstração irreconhecível

Para nós

(Eric Philip Sukys)

Primeiro exercício - poema de Renato Mazzini

último grito
em cada olho uma cidade em chamas, fogo azul
escuro. desde que a mão aprendeu um gesto de
adeus e em cada olho uma cidade em chamas,
fogo. azul escuro, ri-se. transpor cada portão com
o mesmo sorriso macerado e outra vez de encontro
ao mesmo gesto seu: movimento deflagrado pelas
laterais, simulacro de asas de gel, batendo à
rapidez das piscadelas. em cada asa, uma cidade
incendiada, fogo azul escuro, talhos inacabados de
gilete no céu, uma garota escandinava vizinha da dor, e em
cada olho uma cidade no meio das labaredas.
retângulos de nuvens destacados no alto, cauterizados
em fogo escuro, azul. a linha de espera longa,
assemelhada na vertigem de reencontrar o mesmo
rosto no metrô e temê-lo, os olhos, suas chamas
azuis, repetindo-se.

(Renato Mazzini)

Primeiro exercício - Imagem 2

(Max Waldman, Dionysus in 69, 1969)

Primeiro exercício - poema de Nantes de Orange

Esboço sobre um sonho



Sou invisível em meus sonhos.

Não faço parte da cena,

É apenas meu sonho.



Sob aquela silenciosa sinfonia;

Braços, mãos, sangue.

Gestos, movimento, sensualidade.

Dançavam sem ritmo, sem som.



Assisto à cena como um filme.

Sou a única platéia,

Mas não estou na cena.



Dentre as bacantes vejo;

Vestido preto, semblante andrógeno.

Estranha figura que fitava as moças.

Agora olha apenas pra mim.



Sou visível, não é um sonho.

Não é um sonho, faço parte da peça.



(Nantes de Orange)

Primeiro exercício - poema de André Fernandes

paisagem com figura



eis
a mulher no retrato
desdobrada em outras
de seios nus

(que nudez é essa?
do que se está falando senão de corpos?)

apesar do esforço do fotógrafo
apesar de
escorre o rímel que
dá forma à mulher

(sem nudez...
...)


mulher
como homem
doma cavalo

fotografa homens
com enxadas

(uma espécie de tesão: ver o sofrimento alheio...
na classe média intelectualizada)

a mulher está sempre
como peixe
ou referência cruzada

como quem remove o rímel
ou a idéia vaga

(nua)

os seios transpõem a tela
e descansam em desejos
famélicos de hiperrealidade

(André Fernandes)

Primeiro exercício - Imagem 3


(Man Ray, La marquise Casati, 1935)

Primeiro Exercício - poema de Andréa Catrópa

é madrugada e agora sou a senhora dos tempos, imperatriz desta sala, sem outra voz ou espelho da madrasta, a lebre que ergue as antenas para o sono em uníssono e capta os sonhos, colhendo deles a fruta, ameixa roxa que ao raiar do sol me envenena e tinge as pálpebras de púrpura

(Andréa Catrópa)

sexta-feira, agosto 01, 2008

Imagens de Rogério Barbosa




Um poema de Danilo Bueno

Em pleno lançamento da nona edição impressa d'O Casulo, publicamos aqui no blog um poeta que contribuirá na décima edição, Danilo Bueno, como preparativo e aviso de que o jornal está a todo vapor:

guia de viagem — gravuras



exceto o corpo, piscina natural de dias quebrados, claustro e observação simultânea (clausura é somente ar, gotas azuladas) — cardo repele borboleta — pensou no ramo de azevinho (delicado entre amarelo verde vermelho) e na biblioteca de conchas, o coro do mar. talvez nenhuma imagem. à espera do hoxton car service, chaminés variadas. nenhuma delas uma presença real; nenhuma delas papoulas ao sol



Danilo Bueno nasceu em Mauá (SP), é poeta e mestrando em Literatura Portuguesa pela USP. Publicou os livros de poesia Fotografias (Alpharrabio Edições, 2001) e Crivo (Alpharrabio Edições e Fundo de Cultura do Município de Mauá, 2004) e o recente Corpo sucessivo (Editora Oficina Raquel, 2008).

"A imagem sem centro" - Textos e desenhos de Francisco dos Santos

a reinvenção do mesmo

gasta a
imagem,
com ‘su
lengua’
de faca
escava
na face
cava
sua
máscara —
com sua
língua
de faca —
sua
morte
escava



























Poema sobre uma fotografia

Assentou-se
entre livros,
os clássicos, os
contemporâneos,
livros
de toda sorte,
um e outro
casualmente
arranjado,
no colo um gato
rajado,
gato maltês,
para ser
fotografado
como um homem
de sabedoria,
mas
alguma coisa
no olho do gato o
denunciava:
não era Cortázar


a imagem sem centro
aSylviaPlath
a imagem
como ausência
sem centro,
sem voz,
sem cor,
sem um gordo cadáver
fala em solilóquio, faca
cega
que não corta mais seus signos
oh a irmã com os olhos cerzidos
entre as roseiras...
a doce irmã da infância...
quem de vós, em sã consciêcia,
desamordaçaria
Elfrangor?



Francisco dos Santos, 1967, Mato Grosso do Sul. Publicou Topografia de um homem urbano (1986/2001, desenhos), Diálogo com Goya (2000/2002, pintura), A reinvenção do mesmo (2002/2003, poesia), entre outros títulos.

quinta-feira, julho 31, 2008

Um poema de Robert Desnos (na tradução de Elisa Andrade Buzzo)

E para aquecermos o blog durante o pré-lançamento da edição 9, um poema de Robert Desnos traduzido por Elisa Andrade Buzzo. Em breve mais novidades (vocês, leitores, poderão interagir um pouco mais conosco).


Esse coração que odiava a guerra...

Esse coração que odiava a guerra e ainda assim bate pelo combate e a
.............batalha!
Esse coração que só batia no ritmo das marés, das estações,
.............naquele ritmo das horas do dia e da noite,
Então ele se dilata e envia às veias um sangue fervendo de
.............salitre e de raiva
E que conduz tal ruído no cérebro, que os ouvidos zunem
E não é possível que esse ruído não se alastre na cidade e
.............no campo
Como o som de um sino chamando ao motim e ao combate.
Escutem, ecos o trazem de volta, e eu ouço novamente o ruído.
Mas não, é o ruído de outros corações, de milhões de outros corações
.............batendo como o meu através da França.
Eles todos batem no mesmo ritmo em vista do mesmo chamado,
Seu ruído é aquele do mar no assalto às falésias
E todo este sangue leva nos milhões de cérebros uma mesma palavra
.............de ordem:
Revolta contra Hitler e morte aos seus partidários!
No entanto, esse coração odiava a guerra e batia no ritmo das estações,
Mas uma única palavra: Liberdade foi suficiente para despertar as antigas cóleras
E milhões de franceses se preparam na sombra para a obrigação que
.............o amanhecer próximo os imporá
Pois esses corações que odiavam a guerra batiam pela liberdade
.............bem no ritmo das estações e das marés, do dia e da noite.






Ce coeur qui haïssait la guerre...

Ce coeur qui haïssait la guerre voilà qu'il bat pour le combat et la
......bataille!
Ce coeur qui ne battait qu'au rythme des marées, à celui des saisons, à
......celui des heures du jour et de la nuit,
Voilà qu'il se gonfle et qu'il envoie dans les veines un sang brûlant de
......salpêtre et de haine
Et qu'il mène un tel bruit dans la cervelle que les oreilles en sifflent
Et qu'il n'est pas possible que ce bruit ne se répande pas dans la ville et
......la campagne
Comme le son d'une cloche appelant à l'émeute et au combat.
Écoutez, je l'entends qui me revient renvoyé par les échos.
Mais non, c'est le bruit d'autres coeurs, de millions d'autres coeurs
......battant comme le mien à travers la France.
Ils battent au même rythme pour la même besogne tous ces coeurs,
Leur bruit est celui de la mer à l'assaut des falaises
Et tout ce sang porte dans des millions de cervelles un même mot
......d'ordre:
Révolte conte Hitler et mort à ses partisans!
Pourtant ce coeur haïssait la guerre et battait au rythme des saisons,
Mais un seul mot : Liberté a suffi à réveiller les vieilles colères
Et des millions de Français se préparent dans l'ombre à la besogne que
......l'aube proche leur imposera.
Car ces coeurs qui haïssaient la guerre battaient pour la liberté au rythme
......même des saisons et des marrées, du jour et de la nuit.


Com o pseudônimo Pierre Andier, este poema de Robert Desnos foi publicado em 14 de julho de 1943 na revista L’Honneur des poètes. Confira na edição impressa, número 9, do jornal O Casulo a tradução de outro poema de Desnos, além de uma breve biografia em português.

Lançamento - O Casulo 9

Capa de Victor Del Franco - Imagem de Rogério Barbosa


Nesta edição, confira a seção Diversas Vozes, além de poemas de Alckmar Santos, Érica Zíngano, Greta Benitez, ilustrações de Rogério Barbosa, entrevista com o poeta e editor Joan Navarro (com traduções de seus poemas por Fábio Aristimunho Vargas) e tradução de poema de Robert Desnos por Elisa Andrade Buzzo.


Lançamento da edição 9 do jornal de literatura contemporânea O Casulo na FLAP! 2008
Dia 1º de agosto, na Biblioteca Temática de Poesia Alceu Amoros Lima
Rua Henrique Schaumann, 777 - Pinheiros - São Paulo
A partir das 19h
Distribuição gratuita e leituras de poesia

terça-feira, julho 22, 2008

partido alto


Andréa Catrópa

I


Acordei pensando na “má consciência” que parece, muitas vezes, atormentar o meio literário do qual participo, direta ou indiretamente. Ia acrescentar ao verbo acordar o advérbio inexplicavelmente, mas logo percebi a falsidade retórica desse uso. Provavelmente eu possa rastrear as causas dessa reflexão matinal, que me faz adiar o início de uma rotina e que provavelmente atrasará minhas tarefas programadas para serem feitas hoje. Acrescento aqui estes detalhes triviais, porque são bastante elucidativos da minha condição privilegiada: trabalho em casa, em uma situação precária por ser temporária, mas ainda sim privilegiada mesmo quando consideramos apenas o fator do tempo que a maioria das pessoas perde em ônibus e trens lotados para conseguir chegar ao trabalho. Poder acordar de pijama, pegar um café na cozinha, passar pela área de serviço e adentrar o quartinho que é meu ambiente profissional permite que, mesmo quando eu pegue no batente às 8 horas, eu possa me deitar tarde. Por isso ontem, cansada, e detestando telejornais (o mundo cão convertido em pílulas), achei que não seria grave adiar meu sono para me inteirar de um resumo das notícias do dia. Aliás, para ser mais exata, o anúncio de um assunto específico me atraía, o canto da musa para este texto desengonçado: a arrecadação de impostos no Brasil bate seu recorde neste primeiro semestre. Talvez a diminuição da sonegação estivesse por trás disso e fosse algo a ser comemorado. Como não sou economista, porém, penso como leiga. E dada a ficções, estranhamente construí um pequeno roteirinho em minha mente, que juntava as sucessivas ações desastradas da nossa polícia contra a população, intercaladas pelas imagens (close nos sorrisos e olhares altivos) de Cacciola e Dantas.

Desembaraçada da censura, minha imaginação se tornou mais ousada, e criou um curta-metragem onírico mais interessante: um casal de alcoólatras idosos, moradores de uma favela, polemizava com policiais após presenciarem uma troca de tiros em frente à sua casa. A mulher, depois, aparecia exageradamente maquiada, vestida como uma diva e dizendo coisas muito pertinentes sobre nossa realidade social. Para não cansar os leitores, concluo com a imagem mais marcante do sonho: a cabeça dessa mulher rodando em uma máquina de assar frangos.

Desperta e com meu superego ativo e burocrático, tento dar conta racionalmente do que talvez já esteja para o leitor por demais claro. E, voltando à questão literária, procuro tornar menos desencontradas minhas divagações. A idéia da identidade nacional sempre esteve por trás da nossa literatura. Ao considerarmos os esforços de Anchieta para tentar sistematizar e facilitar o conhecimento da língua dos indígenas ou ao atentarmos para as descrições produzidas pelos viajantes europeus durante a colonização perceberemos como o anseio de identificação e construção do que é o Brasil sempre esteve no âmago de nossas Letras. Mesmo quando existiu a recusa à especificidade do nacional, esta esteve negativamente marcada por esse traço, haja vista, por exemplo, a recepção crítica da poesia concreta que a considera como um esforço para a superação dessa especificidade rumo à internacionalização. Idéias como juventude, progresso, mestiçagem, superioridade, euforia talvez tenham desembocado em algumas concepções-chave sobre o país: a irreverência e o caráter tolerante de nosso povo, que têm como seu negativo a falta de seriedade e a passividade.

Esses conceitos, tanto negativos quanto positivos, marcam nossa produção artística e intelectual de tal forma que, mesmo quando não estamos tratando dessas questões, elas estão lá, esperando de tocaia para atacarem. E quando me referi à “má consciência” de nossos escritores e críticos (me restrinjo ao meio literário por falta de conhecimento de outras áreas), estava considerando isto: se a falta de seriedade e a passividade estão sempre espreitando como negativos de nossas qualidades, cabe à elite intelectual estar sempre alerta, tentando compensar essas falhas com o siso e a combatividade. Mas me parece que nossas investidas apaixonadas por uma literatura consciente e crítica de nossas mazelas sociais sejam, hoje, quixotescas: como não simpatizar verdadeiramente com elas, quando sabemos que os monstros atacados são, na verdade, moinhos de vento?

II

Retomo aqui a expressão elite intelectual para explicar o que para mim significa isso. Talvez eu esteja enganada, mas me parece que temos uma elite intelectual e uma elite financeira, sendo que nem sempre os membros de uma fazem parte da outra. Por algumas relações sociais inferidas por todos, a cultura e a erudição podem ajudar um cidadão a se virar economicamente, mesmo que mal. Da mesma forma, privilégios econômicos facilitam o acesso à educação e à cultura. Mas nem sempre, como é de se imaginar, as coisas acontecem assim. A nossa elite intelectual, principalmente na área das Letras, não encontra um mercado tão receptivo aos seus saberes específicos, do mesmo modo que a maior parte da nossa elite econômica não está tão interessada em se “ilustrar” (ao menos, em um sentido restrito e humanista, que não considera a lista das lojas mais descoladas da Rua Oscar Freire como “ilustração”).

Daí que sobre para muitos homens e mulheres de Letras o asilo estatal. Nossos saberes e práticas que não encontram boa acolhida mercadológica ou respaldo social mais amplo sobram como “fortalecimento da identidade nacional”, como resquício de algo que já esteve na ordem do dia em diversos momentos históricos (seja no Segundo Reinado, quando ganha força o Romantismo, ou na Semana de 22, quando se configuram literariamente questões como a urbanização e a tentativa de superação da dependência cultural). A democratização, que significou também o sucateamento do ensino, nos mostra suas conseqüências. Muitos jovens – mesmo de classes sociais privilegiadas – foram, na melhor das hipóteses, educados como mão-de-obra barata. Se um contingente enorme da população não sabe redigir coerentemente suas idéias e tampouco compreende textos simples, imagine os mais abstratos e intrincados. Isto não significa que essas pessoas não possam refletir sobre sua condição social e exercer sua cidadania, simplesmente aponta que o ponto de comunicação e expressão desses indivíduos não é literário. Sob essa ótica, os muitos monstros que figuram em nossa literatura são apenas as pás dos moinhos, e o “buraco é mais embaixo”.

Exercer o papel de poeta, contista ou crítico é apenas uma de nossas facetas como cidadãos, que não nos exime de atuarmos em outras esferas. E com isso, estou próxima de concluir minhas deambulações. A literatura brasileira, sendo parte fundamental de nossa formação cultural e estabelecendo elos entre diferentes pontos de vista, gerações, nacionalidades, credos e, afirmando assim, sua importância histórica, não se restringe a isso. Da mesma forma que como poeta ou pesquisadora brasileira talvez não seja eficaz canalizar todas as minhas preocupações políticas em meus textos. Sou uma dependente do Estado – minha educação formal em Literatura, o dinheiro que recebo atualmente – tudo vem da aplicação estatal de recursos em bolsas de pesquisa e prêmios de incentivo à cultura. Estou, portanto, de rabo preso? O dinheirinho que recebo é uma esmola benevolentemente concedida para eu me calar? E mesmo que não me cale, como agir de forma eficaz e adequada, para que a poeta e estudante seja também uma cidadã à altura de "sua literatura"?

III

Meu pessimismo não se confunde com niilismo. E por isso mesmo faço uma tentativa, a despeito de meu caráter, de ser pragmática. Ao lado do combate intelectual, nós que temos a pena (ou a caneta, ou o teclado), não precisamos pegar em armas. Está fora de moda e vai contra todos os estereótipos que rondam nosso sensível caráter. Para sermos mais efetivos em nossa luta, o primeiro passo é zelar por nosso dinheiro, vencer o preconceito “vapor barato” (é lógico que não precisamos de muito dinheiro, senão estaríamos atuando em outra área). Com tudo o que arrecada, o governo tem por obrigação investir em Educação e Cultura (e, portanto, nosso rabo está solto), e zelar decentemente pela Saúde e pela Justiça.

Sobre o rapaz recentemente vitimado pela polícia em um seqüestro relâmpago: qual o sentido de se perseguir e atirar num carro a esmo, se não é para “proteger o cidadão”? Se os policiais não estavam ali para proteger os cidadãos honestos (ou seja, pagadores de impostos), qual a sua função? Não seria melhor que eles ficassem sentados tomando água de coco, simplesmente observando a ação de criminosos? Talvez assim, o referido rapaz estivesse vivo, apesar de ter a conta bancária depauperada. Percebam que para desviar da demagogia, não preciso nem sair do meu lugar social e comentar os descalabros que a polícia (e, por conseqüência, o Estado) comete nos bairros de periferia. Em outra esfera (talvez num outro país dentro do próprio Brasil), encontramos as civilizadíssimas discussões sobre o tratamento adequado aos presos de colarinho branco. E que fique subentendido que minha intenção não é sugerir um nivelamento por baixo, mas justamente o contrário.

Talvez eu tenha sofrido algumas das conseqüências daquele empobrecimento do ensino a que me referi anteriormente, já que a coesão não é um ponto forte dos meus textos. Mas ficam aqui algumas linhas despontando de raciocínios mal cosidos, que talvez me assombrem desde a adolescência. As dúvidas sobre a pertinência de se trabalhar com literatura no Brasil, a sensação de impotência diante das indecências financeiras cometidas aqui e cinicamente noticiadas como coisa feia pero corriqueira, o complexo de inferioridade compensado pela mania de grandeza que provavelmente assola todo escritor e que nos faz acreditar no poder mágico de umas mal traçadas linhas. E a magia, dizem, é o último recurso do desesperado.

P.S. Se você chegou até o fim do texto, faz parte do grupo que defino como elite intelectual. Se não leu tudo porque achou chato, pobremente desenvolvido ou ficou simplesmente indignado com algumas de minhas afirmações, idem.

segunda-feira, junho 23, 2008

ANDRÉA CATRÓPA

Mergulho às avessas, de Andréa Catrópa: o lançamento será na Casa das Rosas, sendo parte do Recital Caixa Preta (ver post abaixo). A leitura da poeta contará com a participação de Rafael Agra e Andrea Pedro. Será distribuída uma plaquete com poemas inéditos, Edén 13, para aqueles que comprarem o livro durante o lançamento.

mergulho às avessas

o vir à tona de mãos dadas

com o medo


corte

súbito do azul e das imagens onduladas

contato com as superfícies


a dureza das pedras a dureza

do sal o desconforto

de saber-se a salvo





Andréa Catrópa nasceu em São Paulo, em 1974. É mestre em Teoria Literária, co-editora do jornal de literatura O Casulo e atualmente coordena a série de programas de rádio sobre poesia contemporânea Ondas Literárias

http://ondasliterarias.blogspot.com

RECITAL DA CAIXA PRETA

A coleção de poesia Caixa Preta, organizada por Claudio Daniel para a Lumme Editor, tem três novos títulos publicados: Pincel de Kyoto, de Wilson Bueno, Mergulho às avessas, de Andréa Catrópa, e Poemas diversos, de Elson Fróes. O lançamento dos livros será no dia 24 de junho, a partir das 19 horas, na Casa das Rosas, localizada na Avenida Paulista, n. 37, em São Paulo. Na ocasião, acontecerá também o Recital da Caixa Preta, com a presença dos autores e da poeta Virna Teixeira, que lançará em breve o livro Trânsitos, pela mesma coleção. A proposta da série, iniciada com dois livros de Horácio Costa, publicados em 2007 – Paulistanas e Homoeróticas – é apresentar ao leitor textos inventivos, inquietos, de autores que "realizam uma pesquisa poética imaginativa e com artesanato de linguagem", segundo o texto de frontispício dos livros. Os livros da Lumme Editor podem ser adquiridos em livrarias ou ainda pelo e-mail vendas@lummeeditor.com



O quê?
Recital Caixa Preta e lançamento dos livros:
Pincel de Kyoto, de Wilson Bueno
Poemas Diversos, de Élson Fróes
Mergulho às avessas, de Andréa Catrópa

Quando?
Terça, 24 de junho - 19:00 h

Onde?
Casa das Rosas - Av. Paulista, 37
próximo a saída da estação Brigadeiro do metrô

terça-feira, junho 17, 2008

DRIKA NERY


Peixe Cibernético


........E-mail

..........................onda sísmica

..........joga-me na rede

fisga-me sem isca

..circunda

..............................a borda do aquário

..........................................transforma-me em

.............................................descabimento

.............................com um simples aceno

.................e agora já não caibo

..........a bordo



Tarja preta em karaoquê

ficção é meu Lexotan
palavra meu Prozac
vinho meu Valium

Reações adversas:
alergia a homeopatia
e bossa nova





Drika Nery
nasceu em São Paulo e acaba de completar 30 anos. Estudou Cinema e Vídeo, integra o Centro de Dramaturgia Contemporânea e escreve em seu blog
Peixe Cybernéticom.

www.peixecyberneticom.blogspot.com

terça-feira, maio 13, 2008

Por mais cores

Quem teve a oportunidade de ler a mais recente edição de nosso jornal impresso, fixou-se não só nos textos, mas também nas ilustrações. Todas elas foram desenhadas pela mesma mão, a mão de Jozz. Trabalhando um objeto (o balão?), colocado em situações, no mínimo, não-usuais, Jozz conseguiu um resultado fascinante.
Infelizmente, o jornal não pode manter as cores destas ilustrações (com exceção da capa e da contra-capa). Por isso, publicamo-nas agora em alta-resolução com todas as milhões de cores que um monitor RGB oferece.





Obs: clique nas imagens para visualizá-las em maior resolução.

sábado, maio 03, 2008

Para quem não esteve lá

O lançamento d'O Casulo durante a Virada Cultural foi um grande sucesso. Muitas pessoas, embora a cidade fervilhasse de atrações (mesmo na Av. Paulista, onde um grupo de percussão desfilava no momento do sarau), pararam alguns instantes para ouvir poetas declamarem seus versos. Tivemos a presença de muitos poetas publicados na nova edição como Zhô Bertholini (co-editor da revista A Cigarra), Annita Costa Malufe, Edson Bueno de Camargo e Gustavo Assano, entre outros. O público ouviu também a talentosa cantora Laurinha, da banda Casa da Mãe Joana, que tocou suas composições no violão. No final, abrimos o sarau e o público pode ler seus próprios poemas no palco.

Mas para não ficarmos apenas na descrição, aqui estão algumas fotos:

Laurinha e seu violão


A Casa das Rosas quase ficou pequena


Zhô Bertholini

Gustavo Assano


Edson Bueno de Camargo


Tercio Redondo lendo sua tradução de Herman Hesse


* Peço desculpas aos poetas que se apresentaram depois que a pilha de minha câmera descarregou.

terça-feira, abril 22, 2008

Lançamento do Casulo nº 8 na Virada Cultural!


É com enorme prazer que anunciamos a edição número 8 de nosso jornal de literatura O Casulo. Esta edição, que conta com o apoio da Casa das Rosas, será lançada durante a Virada Cultural terá poemas de Annita Costa Malufe, Renato Mazzini, Zhô Bertholini e muito mais na seção "Diversas vozes", a tradução de um poema de Hermann Hesse por Tercio Redondo e uma entrevista com o poeta belo-horizontino Ricardo Aleixo. As ilustrações são todas de Jozz (adiantamos aqui a ótima capa desenhada por ele) que em breve publicará mais trabalhos aqui no blog. Portanto, prepare-se que nossa semana está só começando!

O quê?
O Coletivo Vacamarela e a Casa das Rosas,
orgulhosamente convidam você:

para o lançamento do Casulo - jornal de literatura contemporânea - edição n. 8!

Onde e quando?
Na programação da Virada Cultural:
Dia 27 de abril, domingo, às 15h na Casa das Rosas
(Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura)
Avenida Paulista, 37 - próximo à estação Brigadeiro do metrô
São Paulo - SP

sábado, abril 05, 2008

Excertos novíssimos

Temos o prazer de anunciar que nova edição impressa d'O Casulo será lançada neste mês de abril! O lançamento será na Casa das Rosas durante a madrugada do dia 26 para o dia 27 integrando a Virada Cultural (mais informações nos post seguintes).
Nosso blog, como prometido, retorna à periodicidade semanal: hoje publicaremos três excertos inéditos de Marilia Kubota que farão parte do livro Selva dos Sentidos, ainda em produção. A publicação do livro está prevista para este ano. Então, esperem em breve informações sobre este lançamento. Por enquanto, aproveitem os ótimos textos da autora encontrados na site Escritoras Suicidas.

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível




metamorfose

sob a casca
a lagarta da seda
arredonda a redoma
e sonha asas.

a sombra do luto
anuncia:
breve aqui
mais um fruto

a metamorfose




imensidão

escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria



Marília Kubota (Paranaguá/PR, 06/04/1964) é escritora e jornalista. Publicou ficção pela primeira vez em 1991, no extinto jornal Nicolau, iniciativa da Secretaria da Cultura do Paraná. Integrou as antologias Crônicas Paranaenses (1999), Tsé-tsé (2000/poesia), Passagens (2002/poesia) e diversas publicações: Medusa, Poesia Sempre, Inimigo Rumor, Suplemento Literário de Minas Gerais, e na internet Zunái, Germina, Cronópios e Lagioconda. Em 2007 lançou a coletânea 8 Femmes (Papel de Rascunho/poesia) e prepara Selva de Sentidos (Edições Água Forte do Brasil/poesia). Mantém o blog Micropolis e é editora do site Escritoras Suicidas. Trabalha com projetos de comunicação para a comunidade nipo-brasileira.

terça-feira, março 18, 2008

Para aquecermos

A cidade São Paulo nos últimos dias sofreu uma enorme mudança de clima. Todos pegaram suas galochas, guarda-chuvas e agasalhos para enfrentas chuva e o frio. Foi durante estes dias que confirmamos, com muito entusiasmo, os preparativos para a edição 8 de O Casulo, prevista para o mês que vem.
Para aquecermos o blog (que, realmente, anda um pouco muxoxo) publicaremos agora dois poemas de Silvia Chueire. Re-inauguração em chave de ouro (ou pétalas irisadas).

no escuro

a noite é uma sucessão de horas no escuro
não importa, nada importa
mais uma vodka
uma garrafa de bom vinho
uma carreira branca
mais uma canção a ser cantada
com a garganta trêmula
do sentimento que acossa
o blues magistral fatia a noite
emudecidas as conversas
resgata faces, humanas

é tarde
esgotam-se as horas
o corpo se ressente de ausências
crônicas as palavras caem
sobre o bloco
apanhado ao acaso

o corpo se ressente e cai
nos velhos braços jovens da noite
risos e mais uma dança
antes do amanhecer
sobre lençóis suspeitos

é a vida, diria depois
condescendamos





rubra

há uma rosa rubra na noite
uma rosa de silêncios e segredos

estende-se na madrugada

ninguém sabe das pétalas irisadas
pelo orvalho.

há uma rubra rosa na noite
é tua



Silvia Chueire, carioca, médica, psiquiatra, com formação psicanalítica. Só há oito anos começou a escrever poemas. Tem um blog há quatro anos, o In the meadow e outro, bem mais recente, (uma tentativa) de prosa, o Sempre Ontem. Participação em revistas virtuais de literatura, Germina, Escritoras Suicidas, Minguante.
Um livro de poemas publicado em Portugal, pela editora Cosmorama, em 2005 : Por favor, um blues. Participação na coletânea 8 femmes, livro de poemas que tem oito autoras de diferentes regiões do Brasil, publicado este ano, edição das autoras, organizado por Virna Teixeira.

terça-feira, março 04, 2008

Introdução à leitura de poemas contemporâneos


O Casulo
, jornal de literatura contemporânea, aproxima-se de sua oitava edição com uma excelente bagagem. Durante estes três anos de publicação experimentamos formatos, linguagens, modos de divulgação, entrevistamos nomes importantes do cena literária e apresentamos a produção de uma enorme quantidade de autores das mais variadas dicções e tendências dentro do panorama atual.
Sabemos, pelo contato com o público, que muitas vezes a poesia contemporânea causa certo estranhamento e mostra-se de difícil acesso seja por sua gama de referências, seja pela complexidade de sua exposição, etc. Esta dificuldade, embora não seja nova, vem se aprofundando nos últimos anos resultando em uma poesia muito rica mas, infelizmente, lida apenas por "iniciados".
Andréa Catrópa, co-editora de nosso jornal e mestre em Teoria Literária pela USP, sabendo deste anseio do leitor de poesia preparou um curso de Introdução à leitura de poemas contemporâneos, sete aulas semanais completamente gratuitas que aproximarão o leitor da farta produção contemporânea brasileira.
O curso tem início dia 08 de março, próximo sábado. Ligue para a Biblioteca Alceu Amoroso Lima e inscreva-se gratuitamente. O curso será aberto a público e a inscrição poderá ser feita mesmo após as primeiras aulas.


O QUÊ?
Introdução à leitura de poemas contemporâneos é um curso que irá fornecer aos participantes ferramentas teóricas para sua reflexão acerca da poesia contemporânea brasileira e também promover a leitura dessa produção. Em um primeiro momento, faremos um breve panorama dos principais eventos da poesia moderna nacional e um detalhamento de algumas características do cenário literário, desde a década de 70 até a atualidade. Em um segundo momento, iremos nos dedicar ao exame de algumas características que se manifestam nas obras de diferentes poetas contemporâneos na tentativa de identificar os diversos recursos temáticos e estilísticos que a poesia mais recente tem privilegiado. Essas aproximações visam tornar mais acessível, rico e prazeroso o contato dos leitores com a produção poética contemporânea.

COM QUEM?
Andréa Catrópa é poeta, mestre em Teoria Literária FFLCH/USP e co-editora do jornal de literatura contemporânea O Casulo. Integra a coletânea 8 Femmes e seu primeiro livro de poemas será em breve publicado pela Coleção Caixa Preta (Lumme Editor).

ONDE?
Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros 05413-021 São Paulo, SP
Tel.: 11 3082-5023

domingo, março 02, 2008

Como prometido em 2007


Ano passado, nosso blog teve o prazer de publicar ótimos poetas, das mais variadas dicções, incluindo-se neste farto celeiro a bela poesia de Annita Costa Malufe. Na época de sua publicação, informamos que seu novo livro encontrava-se no prelo. Agora, para abrir o ano, anunciamos o lançamento de Nesta cidade e abaixo de teus olhos pela Editora 7Letras.

QUANDO?
Dia 04 de março, terça-feira
a partir das 19:30h

ONDE?
Cantina d'Amico Piolim — Rua Augusta, 311 — Consolação
(próximo à esquina da Rua Marquês de Paranaguá)
tels: (11) 3255-4587; 3256-9356