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sábado, abril 14, 2007

Proposta de debate

Abaixo, a poeta Sandra Ciccone expressa discordância em relação à crítica ao seu poema "Beleza", que foi publicada no Casulo 5. Para que sua resposta faça sentido e possa ser debatida, publicamos também aqui o poema e o comentário a que se refere.
Bonde Errado do Thiago

Thiago Ponce em seu exercício de crítico literário atingiu apenas a superfície dos textos. Do poema "Beleza" ele diz: "que a proposição temática do poema é de importância pouca e de alguma fragilidade". Um tema não é em si frágil ou forte. Depende de como ele é desenvolvido. Se fosse assim, não precisaríamos ir ao cinema, ficaríamos apenas na sinopse. Foi o que ele fez. “Beleza” é um poema que expõe três versões dela mesma: a mulher e seus contornos, o homem e a força muscular como sinônimo de beleza, e a versão do terrorista suicida frente ao poder de destruição (que sua morte produz). Esse produto de destruição pode ser encarado por ele como uma forma de atingir o belo. Como se vê; é uma reflexão no mínimo atual. Não se trata de defender ou criticar a vaidade, a cirurgia, os anabolizantes, e o homem bomba, mesmo porque este não é o papel da poesia; mas de cutucar a questão.

BELEZA



até o papel de
pele da beleza
ser poder de seda
ter poder de poder
permanecer no
top of seduction
alguém se opera

até músculos serem
força
alguém se bomba
bela vitrine da
bomba de chocolate
belo esboço bronze
dorso

até nova ordem
ter poder de morte
alguém se explode
belo cinturão negro
belo alvo
despedaçado
(Sandra Ciccone Ginez)
Entre sons e sensações
Sabe-se, pois, que arte é o que é e, sendo, possui partes várias que são, numa peça tal, relevantes e imprescindíveis. Caminho, então, de encontro aos poemas de Ciccone - em minha tentativa de apresentar o que penso perceber na estruturação geral deste conjunto de Poemas que, de uma forma ou outra, lançam-se como sensações quando leio. Portanto, como leio, tenho imprecisas e vagas constatações, que não comprometem ou aprimoram o que vai escrito pela poeta.
Ao andar no que li pelo que li, digo da primeira sensação: a intenção da poeta é a sonoridade nos versos. Direi apenas que a intenção parece a de tentar criar o fugaz na escuta plástica dos versos, entrecortados, como estão, em falhas de algum jeito calculadas. Para exemplo aponto o poema Amazon, que mesmo sendo bastante discursivo desenvolve certa economia verbal; necessária para sustentar a amplitude da fala: "senha da selva é entrar/ camuflada/ com marcas do que/ não é cidade".
Outro exemplo é o poema Beleza. Sua velocidade intui a rapidez do contemporâneo: "até o papel de/ pele da beleza/ ser poder de seda/ ter poder de poder/ permanecer no/ alguém se opera/ top of seduction". Há de se perceber que a proposição temática do poema é de importância pouca e de alguma fragilidade; sendo assim, se perceberá o esforço de musicalidade que, por arranjo áspero, cria ruídos rítmicos que acompanham a fatalidade do som: a impossibilidade da conclusão no pensamento do que seja. Configura-se, pois, colocada de lado a temática, uma busca pela sensação de escape que o balbucio das palavras demarcam - o que é ainda a permanência da sensação moderna da anteescrita, muito usada pelos dadaístas.
Sensações. O que resta, então, da leitura dos poemas? Faria ressalvas, muitas; algumas por não saber ser crítico (como se entende por ora) e por me opor às intenções de superação ou aperfeiçoamento da literatura através da interposição de uma consciência alheia, fria e fraca. Outras ressalvas se fariam por ter de partir daqui para colocar o que se me coloca. Não existindo jeito ideal ou fuga, anuncio de pronto que estive a externar uma sensação de leitor de poesia, submetendo-me ao ler os poemas de Sandra Ciccone; estive, assim, a ler sensacionistamente, sem cair no banal do comparativo falho, no óbvio e no evidente de um comentarista.


Thiago Ponce de Moraes

4 comentários:

Thiago Ponce de Moraes disse...

Em verdade a proposição temática é sempre o de menor importância e de maior fragilidade. Não fiz parecer, creio, que fosse somente neste teu poema em específico.

Critíco a busca pelo tema.

No entanto, ainda, não era essa a crítica que colocaria no jornal.

Segue a última versão (que não sei se foi a publicada, enfim):

Sabe-se, pois, que arte é o que é e, sendo, possui partes várias que são, numa peça tal, relevantes e imprescindíveis. Caminho, então, de encontro aos poemas de Ciccone - em minha tentativa de apresentar o que penso perceber na estruturação geral deste conjunto de Poemas que, de uma forma ou outra, lançam-se como sensações quando leio. Portanto, como leio, tenho imprecisas e vagas constatações, que não comprometem ou aprimoram o que vai escrito pela poeta.

Ao andar no que li pelo que li, digo da primeira sensação: a intenção da poeta é a sonoridade nos versos. Direi apenas que a intenção parece a de tentar criar o fugaz na escuta plástica dos versos, entrecortados, como estão, em falhas de algum jeito calculadas. Para exemplo aponto o poema Amazon, que mesmo sendo bastante discursivo desenvolve certa economia verbal; necessária para sustentar a amplitude da fala: “senha da selva é entrar/ camuflada/ com marcas do que/ não é cidade”.

Outro exemplo é o poema Beleza. Sua velocidade intui a rapidez do contemporâneo: “até o papel de/ pele da beleza/ ser poder de seda/ ter poder de poder/ permanecer no/ alguém se opera/ top of seduction”. Há de se perceber que a proposição temática do poema é de importância pouca e de alguma fragilidade; sendo assim, se perceberá o esforço de musicalidade que, por arranjo áspero, cria ruídos rítmicos que acompanham a fatalidade do som: a impossibilidade da conclusão no pensamento do que seja. Configura-se, pois, colocada de lado a temática, uma busca pela sensação de escape que o balbucio das palavras demarcam – o que é ainda a permanência da sensação moderna da anteescrita, muito usada pelos dadaístas.

Sensações. O que resta, então, da leitura dos poemas? Faria ressalvas, muitas; algumas por não saber ser crítico (como se entende por ora) e por me opor às intenções de superação ou aperfeiçoamento da literatura através da interposição de uma consciência alheia, fria e fraca. Outras ressalvas se fariam por ter de partir daqui para colocar o que se me coloca. Não existindo jeito ideal ou fuga, anuncio de pronto que estive a externar uma sensação de leitor de poesia, submetendo-me ao ler os poemas de Sandra Ciccone; estive, assim, a ler sensacionistamente, sem cair no banal do comparativo falho, no óbvio e no evidente de um comentarista.


Thiago Ponce de Moraes

Rio de Janeiro, 03.03.07

O Casulo disse...

Já consertei o erro, POnce.
Desculpe.A crítica publicada no jornal está certa também.
Andréa

Thiago Ponce de Moraes disse...

"Critico"...

Bem, acabei de escrever um longo comentário que, por alguma trava no blog, não apareceu aqui.

Dizia que, é verdade, creio que a superfície tenha muito a oferecer. Mais que o suposto profundo et cetera.
O que deve-se perceber é a sutil diferença entre superfície e superficial. A mesma sutileza que distingue, por exemplo, o genial do trivial.

E reitero o que você coloca: meu exercício crítico pretende apenas atingir a superfície dos textos. Pouco vale ou importa o "contexto" em que se enquandram, "o momento histórico", o "tema".

Alguma parte da crise crítica na academia e em grande parte das pessoas que participam ativa ou passivamente do que se vai dando em literatura é pensar que o poema não tem a ver consigo, mas com coisas alheias e mundanas; superficiais: historicismos, biografismos, achismos.

O tema, partindo para o outro ponto tocado, é um plano problemático a priori. A intenção temática compromete a possibilidade artística plena num poema. Há de se perceber, enfim, que os grandes poemas não correm atrás de temas.

E, obviamente, os poemas podem apresentar uma série de apreensões (ou versões, como chama): 3, 4, 5, n. Não é o que discuto.

A pergunta que deixo é: atual quando e para quem?
A Odisséia, o Lance de Dados, o Finnegans Wake(e tantos outros) são tão atuais ou mais (em que aposto) que muito do que se apresenta nos dias de hoje como arte, literatura, poesia.

Não sei, por fim, se há um "papel" da poesia e se este seria o que refere. Também "cutucam questões", certamente, as novelas da Globo, os filmes e sinopses, as baladas funk.



Ponce.

Anônimo disse...

sandra ciccone diz que "defender ou criticar a vaidade, a cirurgia, os anabolizantes, e o homem bomba" não é papel da poesia, e obviamente não é mesmo, mas "cutucar a questão" tbm não é papel da poesia na mesma proporção de obviedade, até pq não há grande diferenças entre uma coisa e outra. ser ou não uma reflexão atual não qualifica um poema na minha opnião. o poema não tem que refletir nada. poesia pra mim tem que causar surpresa, e ser bem realizado, o que não consegue fazer o poema "beleza". pra finalizar, não acho q a crítica do thiago seja "superficial" e sim "artificial", pq trata dos artifícios, e em poesia, é isso q importa e é isso q é avaliável (segundo critérios ainda que diversos, é claro): os artifícios.