Aviso:

Agora, a oficina online poesia feita de quê? possui um blog próprio http://poesiafeitadeque.blogspot.com/. Estão todos convidados: participem!

sábado, março 31, 2007

Daniela Osvald Ramos

Roteiro das frustrações


cada estação

uma parada

a mão estendida sobre

a criança.

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Tranqüila como em um hospital: se recuperando. Nãonada a fazer senão melhorar do mal, chagas em chamas, ardência estúpida. Falta e ausência eterna, pai. A mãe eu deixo no hospital, foi que nossa relação acabou. Mas ele, eu achava...ele é homem, ele pode.

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Sempre com mais consciência. Sempre que vive, ganha um pouco, isso é certo. Pensando se será cópia de algo, daquele que observou e observa, ele se mantém vivo através disso, pode ser, uma visão romântica de continuidade. Também certo é que a incerteza, a solidão, a dúvida, habitam com sinceridade e são quem são. A continuidade será fato, não precisa de nenhum sentimento que a mantenha viva, porque acontece.

Diniz Gonçalvez Júnior






será de que sorte
o
pano do mágico
caiado de
estrelas


uma
coleção de farsas
espie,
disfarce
truque ou invento


atirador de
facas
plásticas finca a
esfinge no castelo
de
cartas

***


da
sibila, acaso
jogo de conchas
de mareamar

areia úmida
de
instantes :

tecido geométrico
da
calçada em frente
ao
aquário municipal

***

Estrada Velha

carrinho de
rolimã tira

lasca da ladeira

uma
dança em

ziguezague quase

queda à beira
do
meio-fio cáries
do
ar constelações
de
estilhaços caminho

da
boca do mar

Donny Correia


GRAF ORLOK

nave lançada

ao mar:

peste

passeia

entre nautas

morte eminente

mascotes

roedores

águas castigam

o casco

um a um

corpos robustos

quedam-se

ressequidos

noturno títere

zumbi acordado

ergue ereto

do caixote

a r r a n h a d o

a loucura

paira através

do horrendo resto

sombras

governam o convés

ao ancorar

do umbral a velas

um conde

com sua morada

a tira colo

reconhece a

vizinhança:

nova

condenada


M as in MURDER

quando me tirou as muletas

como se fosse uma surpresa

carinhosamente guardada

fadada ao momento propício

pensei:

(por um

segundo e

dez dias)

que minhas próprias pernas

(as que talvez nunca

tivessem existido)

tinham-se atrofiado

a facada em meus

olhos (esta carenagem da

dor)

serviu para iluminar o tecido

de lama movediça

(tudo era tão claro)

(tudo era tão nítido)

(tudo era tão inevitável)

(e inviável)

não sou de dar ouvidos

aos seus gemidos germinados

em meus tímpanos

não fui morrer em vida

e te dar este prazer sem

fim

não dei trela aos

espasmos noturnos

nem à sudorese perpétua

(daqueles dias)

ignorei as visões eróticas

onde eu não era mais

protagonista de porra

nenhuma

fiz que os gritos

de “loser”

não eram para mim

(e nunca foram)

chutei a cabeça

da melancolia e

comi as tripas quentes

da depressão que você

endereçou

(carinhosamente)

ao EUremetente

foi lindo descobrir que

existem mares além

dessas parcas conchinhas

as quais você se resume

hoje, se cruzasse o meu

caminho

em busca de uma revisão

um revival, uma foda

ocasional

certamente eu vomitaria

com asco em seus cabelos

lindos e lisos (embora eu

os dissesse

ressecados)

zombaria de sua cicatriz

e a veria mais gorda

com os peitos postiços falidos

(postiços, e falidos!)

pneus, pneus e mais pneus...

isso tudo é tão pequeno,

absurdamente pequeno

ridiculamente pequeno

mas

te faz tão mal...

ah, como faz...


O HOMEM COM UMA CÂMERA

Para o homem com

uma câmera

/ com olhos de vidro,

visão kinoperplexa,

pistola de luz,

e ação /

a cidade acorda tímida.

Folha após folha

(de jornal), acorda aos poucos.

As pedras minúsculas

da calçada ouvem

passos distantes.

Hora após hora,

agora o barulho

engole a cidade,

o barulho empala

os olhos retidos

com fotos em

focomovimento.

Vertov tudo:

/registrassiste/

declinações cirílicas,

ação sem

som do sentido.

Imprime perpétua

a imagem sinfônica,

gangorra da metrópole

inundada de astros

anônimos:

máquinas mesquinhas

animáquinas miméticas.

Guarda em película

celulóides de gente,

empalha olhares

em planos de fuga,

tangentes rompidas

por rodas e tráfego.

Em cada canto

um microponto

mudo

em preto-e-branco.

Eduardo Lacerda

A última Ceia


Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.

Embrulho

Se devíamos chorar quando os palhaços começam a folia,
Se devíamos pinotear quando os músicos se põem a tocar,
O tempo nada dirá mas eu o preveni.”
(W.H Auden)

na festa

esgar de assopros

incineram

os fogos.

apagado

sorrio

(de lado)

fria a vela

o desejo retorna ao estado

de espera.

E eu espero.

E eu estou de parabéns.

Rua: Sem Saída.

para Tere Tavares

deitamos sobre o asfalto

(nossos corpos atravessados:

– era este o nosso pacto.)

esperávamos pelos carros,

mas os carros não passavam.

(era noite e os carros não passavam)

não seríamos atravessados.

/ e você se levantou

passou pelo meu corpo

e depois se deitou

(deitou do outro lado)

e eu fiz o mesmo

juntos recriamos o medo

de que se passarem por cima

nunca mais cresceremos /

Elisa Andrade Buzzo


Planície argentina


chuveiro de partículas desintegrando-se na névoa

vacas voam na nevasca

o firmamento

- composição azul -

se desloca

***

Construção


Rompe a
manhã

gongo

pedra no invisível

Irrompe drástico

nas suítes inacabadas

Mágico, interrompe a luz

estremecendo em ondas o quarteirão

Rompe ar ressequido, lacre

Transforma espaço vazio em habitável

sombra

***

a cidadetriste

resquício de dentifrício

ônibus afogados – na desordem

das faixas brancas pontilhadas

a cidade atravessada

água para todos os lados do teatro

grito submergido

Fábio Aristimunho Vargas


Poesia sem fundo

1.

o motorista do ônibus,

mãos grandes e firmes e fortes,

fala somente o indispensável

mas engata uma segunda-feira

como ninguém diria.

2.

na mesa um souvenir:

lembrança do rio”.

e o dia quente fora

invariavelmente mais frio

que o ar-condicionado

aqui de dentro.

3.

a moça da calçada

ela passa tão doce

que chega a ser irritante.

não houvesse tantas passantes

o dia perdia o sal.

4.

enquantopassarinhos

cantando,

meus cheques passarão,

voando.

se eu tivesse o talonário dos seus olhos

não precisava de tantas desculpas.

5.

o caixa eletrônico

engoliu minha identidade.

e eu que precisava

de um isqueiro novo,

um sonrisal

e uma boa foda.


Poema extraído de uma resenha no jornal

Seis jovens americanos bronzeados e malhados divertem-se numa praia brasileira.

Uma das meninas decide fazer topless.

Os universitários bebem, jogam futebol e curtem amassos numa cachoeira.

Assim começa o trailer do filme Turistas, que será lançado em dezembro.

Até , mais um filme americano de estereótipos.

Na continuação do trailer, no entanto,

percebe-se que Turistas vai um pouco além dos lugares-comuns sobre o Brasil.

“Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer”, diz o vídeo,

enquanto imagens mostram os jovens sofrerem o golpe do boa noite cinderela

e serem feitos reféns numa casa na selva...

Ah, esses americanos.

Sempre condescendentes demais com a própria história,

tão alheios à geografia alheia.

Ainda bem que no Brasil a gente sabe distinguir perfeitamente

a Nigéria da Costa do Marfim, a Letônia da Ucrânia e a Nicarágua da Guatemala.


Palindrômica

1. álvaro de campos

a ira bate: tabacaria

2. canto general

“a vaga vida dure”, neruda divagava

3. emílio no espelho (1969)

ato idiota

4. terra

mesmo com, sem

5. advertência

, dr., ardia

6. constatação

é verborrágico o cigarro breve