Aviso:

Agora, a oficina online poesia feita de quê? possui um blog próprio http://poesiafeitadeque.blogspot.com/. Estão todos convidados: participem!

sábado, março 31, 2007

Marcelo Bonvicino

Estrada:

Caminho sobre

Pedregulhos

Palavras, há

letras

pontiagudas,

símiles de espinhos apontando

para o sentido,

cascos ásperos

carregando-se ao

sol, as costas secas

descamas dum

dente quente e áspero

arranhancando salgado

como vida – se - fosse

osfuscar-se nos

túneis fúnebres do

Então

como se o sol

fosse tudo o que se há

pra ver

aproximar-se

destes prédios

A diferença

entre a estrada e

uma cidade é questão de

horizontes

como entre um muro e uma cerca.

30/01/07


Beatatá

África sussurra

tiros da América

a bala laica risca

o riso dos títulos & da grana

Berlim escala

um muro de euros

Não aos

cartazes

monges de fraque

“Lo asesinaron cobardemente.

Sacándolo a la madrugada de

la casa y fusilando en la

carretera”

anos decanos

Tabla tantra

ralha a calha

beatatá

não,

nãocamas

na Somália

nem silvos

no Saara

sangue,

Que no quiero verla!)

04/09/05


terça-feira, março 27, 2007

Renan Nuernberger

CONTEMPLAÇÃO DO NOME

"A circulação do poema

sem poeta: forma autônoma

de toda circunstância"

(Carlos Drummond de Andrade,

Desligamento do poeta)

O velho taciturno

(estátua contemplando a calçada)

engole o mar, que o engole.

Ninguém será capaz

de secar a lágrima

escondida, resistente,

em seu corpo de pedra.

Aquela gota de água

salgada entre tantos detritos

de minérios

(e outros segredos

do ferro, da terra distante,

da lagoa e da enorme fazenda)

é um ínfimo mas possível

contato

com as ondas que suas costas

pressentem pela brisa.

Quem foi e será capaz

de incomodar

aquele nome

com apócrifos e placas

de avenidas?


BÚSSOLA

Num ato sou fraco.

No outro sou forte.

Não se desaponte.



O CASULO

para Eduardo Lacerda

as traças traçam todos os assuntos.

sem nenhum critério de escolha

traçam as folhas avulsas, os rascunhos,

os recados com nome, telefone e

aniversário, as antigas fotografias,

os jornais e as revistas literárias,

os cem menores contos brasileiros,

marca-páginas, enciclopédias, dicionários

de bolso, certificados de melhor romance,

vencedores do prêmio jabuti,

letra e sobre as letras do caetano

veloso, encartes de cds, diários secretos,

agendas rabiscadas, envelopes vazios,

páginas brancas (ainda sem tinta),

passaportes vencidos, documentos confiscados,

direitos políticos cassados,

o álbum de figurinhas do seninha.

as traças traçam todos os papéis

da casa. impossível pedir uma pizza,

descobrir a safra do vinho

ou acertar o relógio digital.

as traças traçam outro dia de folia,

rasgada, o eco do espelho,

o mínimo, medianeira, se no sol,

as raízes que eu não tive

e tantas outras edições limitadas.

as traduções dos clássicos traçadas

mantêm as duras capas ocas

sem reedição comemorativa,

sem fac-símile do original.

esgotada a edição de sagarana

(não revisada) com três contos a mais.

a biblioteca toda é carcaça

alexandria ao fogo: esquecimento.

porém, nossa vingança (pretendemos)

será, ao todo, muito mais brilhante.

contra a grande ameaça de extinção

desta estranha sanha (o ser poeta)

criaremos juntos (futuro próximo?)

o vôo de uma terrível borboleta.

Reynaldo Damázio

Treze

As lâminas da língua
talham balelas na pele-página

o corte agudo, exato, não
deixa cicatriz, mas tatuagens

que se movem ao revés
nas rugas da linguagem

o corpo escravo da fala
se verga, esgástulo, desapruma

e o verbo esgrima com a
víscera, infecundo de

tempo, espaço, gesto:
frase ou mera mímica?

anêmica a palavra míngua
à revelia do sentido

sem norte, ensimesmada,
arremedo de tatibitate,

ora engodo, ora miasma,
lance de dados viciados

rouca ou farpa a voz
perde o fio da meada

e adentra a selva obscura,
coisa mental no branco imenso

língua e voz, confrontadas,
se renegam. Ennui.


Distúrbio periférico

Tonto, não porque o planeta

se mova em órbita improvável,

a mente plane liberta da

física do corpo, os objetos

saltem frenéticos e inaugurem

nova e paradoxal inércia;

tonto de náusea labiríntica, esquiva

de argumentos, aflita de

incompletudes, movimento interno

de suspensão do tempo,

este presente instável, parêntese

ziguezagueante, ávido de concretude,

embora órfão de referências, à guisa

de ancoradouros; tontura

antimelancólica por excelência,

projeção de lapsos mentais,

zunindo, carrosséis, caracóis,

livros, sinais, lombadas, vozes

sem palavras, música sem instrumentos,

texturas e cheiros, cambaleando na

calma aparente da noite, ressonar

do pequeno ao lado: o quarto

se move, ou sou eu que me movo,

extático?


Ao dente

boca faminta

morde o caule do dia


não há seiva


todo seu entendimento

está nos dentes

operação depuradora de

sabores


inútil saber


olhar projeta fome

nas palavras

que sequer matam a sede

de conhecimento


famélica espera

no umbral de especulativa era

recusa de nome e

endereço


apenas boca infame

a devorar o caule do dia


no dente, sua fé.


Sandra Ciccone Ginez




PONTOS CARDEAIS

qual dedo dispara o gatilho

de uma manhã

que se propaga em ato ousado

anjos trabalham indefinidamente

compondo guirlandas no

quadro de gesso à esquerda

em oposição um

oceano ensaia sua onda maior

a sonhar dentro dela

ao sul alegria cinza

só então

para somar à geografia dos passos

meu quadrilátero


TRAMA


caio

ralo joelho

sou só joelho

que arde

goteja

gruda

e continua caminhando

minha calça é

trama de um tecido

que esfola ferida

rasgado

lateja

partes se juntam e

tecem

cicatriz

assim

pele que se faz

couraça

e coceira

que se quebra

nas arestas

se faz pequena

cai

e continua caminhando



TRIGAL INCLINADO


nunca vi o campo de trigo

nunca o campo envergado

no vento

a chuva obliqua no verde do cabelo

o sol inclinado na direção do

vento no campo molhado

surda para os insetos sobre

o grão maduro

não sei se declinam reflexos

no campo da colheita

só sei dos crescimentos da areia e

do cimento

Thiago Ponce de Moraes


Tema

Todo poema é.



Outridade

Ainda há refúgio à sombra

Ainda ( se à pedra

Ainda ) há

É preciso

É preciso ( dizer o falar se

É preciso ) datar o dia (ainda)

Proléptica

Segue com suas entranhas deslizadas

Muito antes

De trocar acenos

Muito antes

De atiçar um sonho

Esquivado à margem de resquícios

Finis operae

Estar em descanso. Dedilhar no piano

Do qual as cordas cortara. Percebes

O trágico é

Insustentável.

.

Estar descansado. Nada,

Nada recorda;

Iças.

Raio origem,

Céu robusto de contrátil

Luz.

Victor Del Franco

quebrado

Nas disformes calçadas

bu

ra

cos

di

versos

armadilhas severas

para pés distraídos

que sempre insistem leves

em caminhar nas nuvens.


A MENINA DOS OLHOS

De relance

um lance de olhar

feito lança

flerte

certeiro

após o arremesso

ela ainda sorriu

(inocente)

como se nem soubesse

onde era o alvo.


Garrincha

no meio do caminho

tinha um João

tinha um João

no meio do caminho

João

pra

João

pra

no meio do caminho

não tinha ninguém

O inefável




Tenho a poesia enquanto procura de fixar o inefável – o inexprimível e o gozoso: o sorriso de uma ironia, o esgar de uma injustiça, a vertigem de um gemido, o brilho da água. Então, cada poema, cada texto poético, será um momento preciso, e em si mesmo imprevisível e irrepetível, uma epifania. Epifania da claridade e da desdita. Assim, qualquer escolha que façamos ao publicar, justamente a partir dos nossos critérios, deverá dar a melhor oportunidade de revelar a cada poema e texto poético – porque todos comportam, neste sentido, independentemente da sua forma, o mesmo valor.

Pedro Silva Sena

http://arvoredaspalavras.blogspot.com/

sábado, março 03, 2007

Dualidade dos tempos: aspectos da poesia de Eduardo Lacerda

“A imagem poética ilumina com tal luz a consciência, que é vão procurar-lhe antecedentes inconscientes. Pelo menos a fenomenologia tem boas razões para tomar a imagem poética em seu próprio ser, em ruptura com um ser antecedente, como uma conquista positiva da palavra. […] Dir-se-ia que a imagem poética, em sua novidade, abre um porvir da linguagem”.

Gaston Bachelard, “A Poética do Devaneio”

Como diz Bachelard, em sua Poética do Devaneio*, a novidade gerada pela sutileza da imagem poética provoca novo animo nas construções tradicionais, “renova e redobra a alegria de maravilhar-se”. É como diz e mostra, em sua obra, João Guimarães Rosa, que reconstrói a linguagem a partir do intuito de despertá-la em seus significados: Sua linguagem opera a partir do contato de uma língua renovada com seu falante, que é obrigado a deixar para traz os signos estáticos anteriormente concebidos.
Eduardo Lacerda, por sua vez, em alguns momentos, confere às imagens poéticas uma certa renovação que desperta no leitor de poesia uma espécie de desconforto em relação às imagens tradicionais, obrigando-o a entrar em contato com elas e construí-las a partir de seu ponto de vista. Podemos observar tal mecanismo, por exemplo, no poema Iemanjá, no qual evoca o mar – figura extremamente tradicional em poesia – estabelecendo uma comparação entre o mesmo e um corpo em atividade muscular: “Virá/ de fora/ e/ rasgará, a nado/ o músculo/ da água”.
O trabalho que empreende com a linguagem, apresenta -- dentro de limites -- aspectos bastante interessantes. Causa no leitor estranhamento ao utilizar uma linguagem, por vezes, reconhecível e comum, combinada a uma estruturação formal – tanto métrica e rítmica, quanto vocabular – inesperada e até mesmo excêntrica. A configuração do que há de relativamente novo é em si de estranheza em relação à poesia e ao mundo em que ela se insere. Isso se demonstra no próprio vulto do poema, na página em que é posto em estrofes, muitas vezes, tradicionais como dísticos e quadras, a ver no poema Idéia de família. A forma como Lacerda concebe as estruturas tradicionais, junto às imagens que utiliza, conferem uma particularidade que o contrapõe à tradição poética e faz com que os poemas não fujam a ela, mas observem-na de forma particular.
Essa habilidade em trabalhar forma, conteúdo e tradição de modo eficaz marca os pontos positivos da produção do poeta. Em contraponto, percebo não haver inovações estéticas mais radicais em seus poemas. Parece-me algo extremamente bem tramado, que, entretanto, estabelece pouco diálogo com a produção de arte contemporânea. Uma opinião bastante particular baseada na idéia de que, ao contrário do que pensam os “pós-modernos”, a poesia contemporânea não sofre de um esgotamento em relação aos recursos de vanguarda, mas sofre a falta do diálogo dos poetas com a realidade. Não realidade, enquanto reprodução do mundo externo – a própria fenomenologia prova não haver tal mundo – e sim, a realidade enquanto o cenário composto pelo diálogo entre o artista e a produção artística que o avizinha. Creio que sofremos por não haver público que nos leia e, por isso, deixar de nos envolver com qualquer público, relegando e obrigando a poesia aos poetas.
O poema Iemanjá apresenta-nos um quadro muito rico que se compõe da tradição cultural afro-brasileira e explora com muito fôlego a força da linguagem poética e seu caráter epifânico. O segundo poema, Embrulho se constrói a partir de uma força centrífuga, que pode causar espanto ao leitor. O eu lírico, ao introduzir-se de maneira espantosa numa situação banal – sua própria festa de aniversário – questiona o leitor (e a si mesmo) a respeito do valor ontológico da passagem do tempo e da forma com que a cultura nos leva a relacionarmo-nos com essa passagem.
Por fim, e o mais interessante dos três, o poema Idéia de família estabelece uma reflexão quanto ao valor da tradição – simbolizado pela relação entre o eu lírico, seu pai e seu avô, ligados culturalmente por um objeto, a colher de pau -, apontando para o fato de que ela está se esgarçando. O poeta se recusa à tradição, que para ele, vem “como castigo”. Rompe com ela, atitude, ao meu ver, positiva, mas positiva apenas se acompanhada de uma nova forma de organizar a cultura. Ou seja, um excelente poema pela forma como se compõe, pela discussão que abarca, que peca apenas por inovar pouco ao recusar a tradição poética e, ao mesmo tempo adotá-la formalmente.
Creio, como também jovem poeta, que devemos lutar para garantir o poder da arte poética de, como disse Bachelard, abrir “um porvir da linguagem”.

*BACHELARD, G., A Poética do Devaneio, trd. Antonio Pádua Danesi – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2006 – (Tópicos)

Marcelo Bonvicino




quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Cordão de Carnaval

( imagem:encarte do álbum Sonic Nurse)

MÚSICA PARA ESCREVER: música e poesia eram irmãs siamesas que passaram por uma cirurgia de separação, mas permanecem sempre saudosas da sua outra parte. A proposta é, então, reunir neste Carnaval poemas inspirados em canções, marchinhas, sinfonias etc.


regressões

iloveyougoldenblue o ar pontilha-se cintilante, simula-se o desmaio, no ventre de nossas mães não havia diferença entre estar ou não acordado, você dedilha acordes de uma infância inventada quando nãonada que eu saiba sobre o mundo quando os muros forem derrubados quando apenas as plantas mais fortes sobreviverem quando dinossauros destruírem com os dentes nosso conceito de alteridade

(poema de Andréa Catrópa, inspirado na música "I love you golden blue", da banda Sonic Youth)


Ouvindo Moon River

o céu destila
lua de crepom
veio prata
meia lágrima
fingida
de cristal japonês

(poema de Diniz A. Gonçalves Júnior, inspirado na música "Moon River", de Johnny Mercer e Henri Mancini)




Modinha para Anna Lívia

Quando bati a porteira,
levei
comigo a miragem
da
morena brejeira
com cheiro de manacá.

Faço
doidices por ela:
tiro duzentos mil réis
do
Banco da Lavoura
e compro
tudo em anéis.

Vendo
terras, boiada,
boto tudo na guaiaca,
vamos pro
Rio de Janeiro
beber champagne gelado.

Torro
inteiro o cafezal,
gasto o ouro de Gongo Soco.
Vamos
pular Carnaval
e
desfilar no Ameno Resedá.

(poema de Donizete Galvão, publicado em seu livro Ruminações, de 1999)



O azul da festa

Tudo azul

diz o folião

atrás do trio elétrico.


Tudo azul

diz a colombina

no meio do salão.


Tudo azul

diz o passista

enquanto ferve o frevo.


Tudo azul

diz a celebridade

no carro alegórico.


Ouvindo Robert Johnson

diante da encruzilhada eu digo:

tudo blues.

(poema deVictor Del Franco)



CLAVIERFANTASIEN


I

palavras como

emissões de cravo

atemporais

pinceladas de

espírito frescor

no limiar do rarefeito


II


palavras de um

balé de cores carnavais

que brincam se excitam

fantasias e prelúdios

brilham

antes da fuga


KUNST DER RUHE


palavras como quem

pisa pedras frias

de um palácio

afrescos e retratos

olhos vítreos que

vigiam

silêncios de verniz

(poema de Sandra Ciccone Ginez)