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terça-feira, março 27, 2007

Renan Nuernberger

CONTEMPLAÇÃO DO NOME

"A circulação do poema

sem poeta: forma autônoma

de toda circunstância"

(Carlos Drummond de Andrade,

Desligamento do poeta)

O velho taciturno

(estátua contemplando a calçada)

engole o mar, que o engole.

Ninguém será capaz

de secar a lágrima

escondida, resistente,

em seu corpo de pedra.

Aquela gota de água

salgada entre tantos detritos

de minérios

(e outros segredos

do ferro, da terra distante,

da lagoa e da enorme fazenda)

é um ínfimo mas possível

contato

com as ondas que suas costas

pressentem pela brisa.

Quem foi e será capaz

de incomodar

aquele nome

com apócrifos e placas

de avenidas?


BÚSSOLA

Num ato sou fraco.

No outro sou forte.

Não se desaponte.



O CASULO

para Eduardo Lacerda

as traças traçam todos os assuntos.

sem nenhum critério de escolha

traçam as folhas avulsas, os rascunhos,

os recados com nome, telefone e

aniversário, as antigas fotografias,

os jornais e as revistas literárias,

os cem menores contos brasileiros,

marca-páginas, enciclopédias, dicionários

de bolso, certificados de melhor romance,

vencedores do prêmio jabuti,

letra e sobre as letras do caetano

veloso, encartes de cds, diários secretos,

agendas rabiscadas, envelopes vazios,

páginas brancas (ainda sem tinta),

passaportes vencidos, documentos confiscados,

direitos políticos cassados,

o álbum de figurinhas do seninha.

as traças traçam todos os papéis

da casa. impossível pedir uma pizza,

descobrir a safra do vinho

ou acertar o relógio digital.

as traças traçam outro dia de folia,

rasgada, o eco do espelho,

o mínimo, medianeira, se no sol,

as raízes que eu não tive

e tantas outras edições limitadas.

as traduções dos clássicos traçadas

mantêm as duras capas ocas

sem reedição comemorativa,

sem fac-símile do original.

esgotada a edição de sagarana

(não revisada) com três contos a mais.

a biblioteca toda é carcaça

alexandria ao fogo: esquecimento.

porém, nossa vingança (pretendemos)

será, ao todo, muito mais brilhante.

contra a grande ameaça de extinção

desta estranha sanha (o ser poeta)

criaremos juntos (futuro próximo?)

o vôo de uma terrível borboleta.

Um comentário:

Marcelo disse...

Gostei dos poemas. Só são meio complicadas essas três últimas estrofes do último poema... haha...
Abraços.