Aviso:

Agora, a oficina online poesia feita de quê? possui um blog próprio http://poesiafeitadeque.blogspot.com/. Estão todos convidados: participem!

sexta-feira, novembro 30, 2007

Falta apenas um dia

E hoje uma resenha de Ivan Hegenberg sobre o livro de Ari Almeida, O Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Confiram:


Para o maior terrorista poético do Brasil



Ari Almeida, você é mais importante do que imagina. Se você soubesse o quanto as conversas dos artistas plásticos e dos poetas chegam sempre no mesmo impasse... Uma palavra freqüente é “crise”, pois é isso que está tomando conta de todas as expressões artísticas. A coisa é séria, os artistas estão todos perdidos, parecem mais cobras mordendo o próprio rabo. Existe, entre os poetas e artistas de hoje, uma tentativa de fundir arte e vida, de dissolver a arte no cotidiano, de fazer com que o dia-a-dia se torne mais poético. A intenção é empolgante: se o próprio correr dos dias fosse tão rico e intenso quanto um poema épico ou quanto a pintura mais bonita, já não precisaríamos nem de museus nem de coletâneas de autores. Mas a verdade é que essa tentativa fracassou, o artista continua fazendo o papel de uma instituição, de uma autoridade que decide o que é arte e o que não é. Ou seja, se precisamos do “Artista” como uma espécie de juiz, a arte continua separada da vida.
Eis que de repente, Ari, você entra na discussão. Você mesmo, jamais um artista, antes um guerrilheiro da contracultura. Nem sequer assina com o nome verdadeiro (caramba, quem é Ari Almeida?). Não pede licença para invadir a casa dos outros e espalhar suas idéias onde quer que esteja. Entende como ninguém o quanto a verdadeira história é a história do desejo. Percebe que num mundo apático como o nosso, a consciência só é despertada diante de verdadeiros crimes. E portanto oferece o terrorismo poético como alternativa, em lugar da crueldade do terrorismo real. Palavras e imagens não bastam para mudar o mundo, daí nasce teu amor pela ação. Se alguém quiser mesmo fundir vida e arte no mesmo gesto, é preciso deixar de lado toda a história da arte. Você não precisa do status de artista para ser arteiro: de outra maneira, só teria histórias frustradas para nos contar.
E o que não te falta é repertório, como você descreve no Manual Prático de Delinqüência Juvenil. Com os Delinqüentes, você ousou como um verdadeiro Lampião, com a diferença que trocou a carabina pelo estilingue. Se nós, poetas angustiados, declamamos poesia nos saraus, vocês os atiraram para dentro das casas, quebrando as vidraças e a apatia. Os muros também não foram poupados, fazendo as vezes de tela para pinturas e frases que são como disparos. Nem mesmo a sagrada televisão, a maior rival da cultura, ficou ilesa: Delinqüentes não precisam respeitar nem mesmo Rede Globo, invadem a programação e dão sua própria versão (na verdade, a subversão) do Jornal Nacional. Nas mãos de vocês, o que era um cínico out-door se torna uma queima de fogos, o que era enfeite de natal vira protesto contra o consumismo, e um técnico de geladeira merece tanto carinho quanto um grande artista ou um popstar.
Não pude deixar de notar que você tem suas mil contradições, que tento entender como efeito colateral de uma liberdade radical. Como você mesmo disse: “Hoje quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo”. Devo admitir que não é fácil te defender em público, não se fala de alguém tão polêmico impunemente. Claro que eu vejo uma grande beleza quando você conta que invadia casas para, em vez de roubar, presentear o morador com mensagens disruptivas ou com surpresas maravilhosas. É uma generosidade ampla, com a qual não estamos acostumados. Eu me pego sonhando com o que foi que sentiu a criança que ganhou um coelhinho vivo na páscoa, na calada da noite; ou a velha viúva que se deparou com uma horta inesperada em seu quintal; ou mesmo as madames que podem, talvez, “não terem entendido nada”, mas tiveram uma chance de questionar seu próprio marasmo. Não podemos esquecer, no entanto, que nem tudo que vocês fizeram pode ser imitado. São Paulo é mais perigosa que Curitiba: a polícia é mais intolerante e os traficantes estão por toda parte. Invadir casas por aqui não é recomendável. Além disso, algumas de suas subversões não me parecem boas saídas: uma catapulta de merda contra os carros novinhos da fábrica da Renault pode simbolizar uma vingança contra os ricos, mas quem limpa a sujeira depois é um homem do povo, vítima do sistema.
De qualquer maneira, em um mundo tão caótico como o nosso, acho importante ver o que tem a dizer quem busca converter todo o caos em algo positivo. Comoveu-me muito um comentário em seu blog de um professor, chamado Renato, que levou suas narrativas para a sala de aula e confessou que aprendeu contigo algo sobre união. Pode parecer desnorteador pensar que aprendemos algo tão sublime com alguém tão porra-louca, mas o perigo maior não está no seu livro nem no blog. Está na realidade em decadência, e você mesmo demonstra isso em sua prosa beatnik.
É difícil prever o que acontecerá com cada pessoa que ler o Manual, mas não duvido que ele possa até mesmo salvar vidas. É um livro que dá alternativas aos jovens mais inquietos: aqueles que se sentem sem rumo, que cedo ou tarde acabariam se perdendo, que se marginalizariam sem volta, que se desesperam por não entender porque não se adaptam. Nós precisamos desses inquietos, conscientes e em liberdade. São eles que nos dão a esperança de que algo possa mudar. Não sei se todos te compreenderão, Ari, mesmo porque você é um poço sem fundo de contradições. Ainda assim, não escondo a admiração pelo terrorista que, se nunca invadiu minha casa com seus disparos, invadiu minha mente com os relatos, e com isso mudou minha vida.

O Manual Prático de Delinqüência Juvenil tem publicação prevista para o fim deste ano, pela Editora Deriva, a um preço popular.

Mais informações: http://editoraderiva.multiply.com/
excambo@yahoo.com.br



Ivan Hegenberg é escritor e artista plástico. Em 2005 lançou A grande incógnita (contos) e em 2007 Será (romance). Tem textos publicados no site Cronópios e no blog L’enfant Le terrible: http://ivanhegenberg.blogspot.com.

quinta-feira, novembro 29, 2007

2 em 1

Faltam apenas dois dias! Não percam o lançamento de O Casulo.


Estas são algumas imagens do 2 em 1 digital, que é formado por Rafael Agra e Andrea Pedro. O coletivo apresenta trabalhos que dialogam com as técnicas tradicionais de pintura aliada aos recursos da computação gráfica, e passeiam por suportes tão diversos quanto luminárias, bolsas, agendas, camisetas etc.


.: o coletivo 2 em 1 digital estará exposto de 04 de dezembro de 2007 a 19 de janeiro de 2008 no Central das Artes ( Rua Apiganés, 1081, Sumaré - São Paulo - SP; tel: 11 3865-4165).



(clique nas imagens para ampliá-las)






segunda-feira, novembro 26, 2007

Lançamento do Casulo nº 7!


A edição 7 do jornal de literatura contemporânea O Casulo, que contou com o apoio do VAI (Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo) nos dois últimos números, será lançado dia 1º de dezembro na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, a partir de 19h.

O lançamento é um dos marcos da reabertura da Casa das Rosas como pólo literário da cidade, após a exposição CAD Brasil (Casa Arte & Design), que se encerrou em outubro deste ano.

Haverá também leitura de poemas, inclusive com a participação dos alunos de ensino médio, vencedores do concurso literário Saia do Casulo.

Abaixo, prévia do conteúdo de O Casulo número 7:

Poemas
de Alberto Pucheu (RJ)
de Ana Elisa Ribeiro (MG)
de Lígia Dabul (RJ)

Tradução
de poemas do norte-americano Bill Knott, por Reuben da Cunha (MA)

Conheça
a história de Roberta Maria da Conceição e Severino Manoel de Souza, que criaram a Biblioteca Comunitária Prestes Maia. E saiba o que eles fazem, onde vivem e o que aconteceu com a biblioteca depois da desocupação do Edifício Prestes Maia, no centro de São Paulo.

Resultado do Concurso Saia do Casulo
confira os textos premiados de alunos de Ensino Médio.

Arte da capa e ilustrações
de Angelina Camelo (MG)

Mais ilustrações
de 2 em 1 digital - Rafael Agra & Andrea Pedro (SP)

No mesmo dia, como postado abaixo, será oferecida na Casa das Rosas a oficina "Poesia brasileira contemporânea e o exílio na especificidade" por Andréa Catrópa, uma das editoras do jornal.

Então é isso:

Dia 1º de dezembro – das 10h às 14h30
Oficina de poesia (por Andréa Catrópa) - - 20 vagas

Ainda no dia 1º — a partir das 19h
Lançamento jornal O Casulo – literatura contemporânea – número 7 - com leitura e participação dos ganhadores do Concurso Saia do Casulo

Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura)
Avenida Paulista, 37 – próximo à estação Brigadeiro do Metrô
Telefone: (11) 3288-9447
http://www.casadasrosas.sp.gov.br/

Lembrando que todas as atividades são gratuitas.

domingo, novembro 25, 2007

Oficinas na Casa das Rosas

A Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura passou por uma grande reforma este ano e agora se prepara para abrir suas portas novamente a todos os admiradores de literatura. Ainda haverão alguns eventos até o fim deste ano mas nos reservamos a divulgar as três oficinas literárias que serão realizadas durante o mês de dezembro. Destacamos a oficina de nossa co-editora, Andréa Catrópa, sobre poesia brasileira contemporânea que é aberta a público, completamente gratuita (será a última oficina organizada pelo jornal O Casulo este ano). Uma oficina muito bem ministrada e voltada a todos os interessados em literatura contemporânea.
E se puder, compareça também nas duas oficinas de criação que a Casa das Rosas oferece este mês: haikai com a grande poeta Alice Ruiz e de narrativas breves com o contista, vencedor do Jabuti, Marcelino Freire.




CURSOS DE DEZEMBRO 2007

Poesia brasileira contemporânea e o exílio na especificidade
Por Andréa Catropa

Dia 1 de dezembro das 10 às 14:30
Vagas: 20
Gratuito

O objetivo desta oficina é fornecer aos participantes algumas ferramentas para sua reflexão acerca da poesia contemporânea brasileira. Para isto, faremos um breve panorama dos principais eventos da poesia moderna nacional e um detalhamento de algumas características do cenário literário, desde a década de 70 até a atualidade. Também iremos nos deter na leitura de alguns textos deste período, para que os elementos teóricos sejam confrontados com a produção poética atual.


Oficina de haikais
Por Alice Ruiz

Dias 12, 13 e 14 de dezembro, das 19 às 21hs
Vagas: 30
Inscrição: R$ 10,00

Essa oficina se propõe a familiarizar os participantes à técnica e prática do haikai- poesia mínima de origem japonesa, analisando e cotejando a produção de haikais japoneses e brasileiros, em conjunto, tendo assim um rápido apanhado histórico. Na parte prática, o participante inicia com exercícios de tradução passando para a criação em conjunto, e com a coordenadora, havendo espaço, é claro, para as produções individuais.

Oficina de narrativas breves
Por Marcelino Freire

Dias 12, 13 e 15 de dezembro, das 19 às 21hs, (sábado, dia 15, das 15 às 17hs)
Vagas: 30
Inscrição: R$ 10,00

O autor de “Contos Negreiros”, “Balé Ralé” e “Angu de Sangue”, dentre outros, Marcelino Freire ministrará esta oficina em que mostrará aos participantes os passos para se construir uma narrativa breve que prime pela qualidade através da forma concisa.


***

As inscrições devem ser feitas pessoalmente na Casa das Rosas, com Fernanda César, de segunda a sexta, das 10 às 18h.

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Av. Paulista, 37 – Bela Vista
São Paulo – SP
Tel: 3288-9447
www.casadasrosas.sp.gov.br


sábado, novembro 24, 2007

inédito de Annita Costa Malufe

Depois de um longo hiato voltamos com as postagens semanais. E com muitas novidades: a próxima edição imprensa do jornal já está no prelo e será lançado dia 01 de dezembro na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de poesia e literatura (começamos a contagem regressiva. Novas informações todos os dias, aguardem). Agora, temos o prazer de anunciar a publicação de um poema inédito de Annita Costa Malufe, parte de seu novo livro Nesta cidade e abaixo de teus olhos, que será publicado em breve pela Editora 7Letras. Que 2008 comece com este e mais grandes lançamentos na poesia brasileira!

caber na realidade das ruas
colher as falas das ruas
perambular pelas ruas
procurar o poema nas ruas como se
de um pequeno lapso de tempo entre
a partida do ônibus o amarelo
do sinal o senhor que se abaixa para
amarrar os sapatos alguma coisa marcasse
uma parada imperceptível do tempo uma luz
que roça a copa das árvores meio de lado
meio no cair da tarde como se tivesse
sido lançada pelo som dos sinos das seis
sumindo com os sinos levando os sinos e
as árvores e as ruas e o poema e as falas
para um lugar
em que o mundo
já não fala

[para Heitor Ferraz]


Annita Costa Malufe é pesquisadora, nasceu e vive em São Paulo. É autora do livro de poemas Fundos para dias de chuva (RJ, Ed.7Letras, 2004) e do ensaio Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (SP, Ed. Annablume, 2006). O poema acima faz parte de seu novo livro, Nesta cidade e abaixo de teus olhos, a sair pela Ed. 7Letras ainda neste ano. Atualmente, conclui seu doutorado em teoria literária pela Unicamp, estudando poesia brasileira contemporânea e filosofia da diferença francesa.

sábado, outubro 27, 2007

Oficinas literárias O Casulo

Entre os meses de outubro e novembro deverão ocorrer 20 oficinas literárias O Casulo. A intenção inicial é apreender e auxiliar a produção poética dos alunos de Ensino Médio da rede pública da município de São Paulo. Poetas de conhecido repercussão apresentam aos adolescentes um pouco de teoria e estimulam a escrita sugerindo a utilização de alguns recursos recorrentes na linguagem poética.
Agora temos uma notícia ainda melhor: estas oficinas literárias vão expandir seu alcance. Numa parceria com a ACEPUSP, faremos cinco oficinas abertas ao público interessado em poesia. Pessoas de todas as idades poderão comparecer, para desenvolver a produção seus próprios poemas ou simplesmente para melhorar sua maneira de ler poesia. Infelizmente, uma destas oficinas (Formas poéticas, por Fabiano Calixto) ocorreu no sábado passado e outra
acaba de ocorrer hoje (Sonoridade na poesia, por Frederico barbosa). No entanto, ainda ocorrerão 3 oficinas que, esperamos, sejam muito frutíferas.

As oficinas ocorrem todos os sábados às 10 horas da manhã no ACEPUSP:
Rua da Consolação, 1901 (próxima ao Metrô Consolação) - São Paulo/SP.
fone: (11) 3258-1436


As próximas oficinas serão:

03/11/07 - Teoria e prática do poema, por Flávio Rodrigo Vieira (estudante de Letras Português/Alemão pela USP)

10/11/07 - Imagem criadora, imagem criação, por Juliana Bratfisch (estudante de Letras Português/Francês pela USP)

17/11/07 - Jornalismo literário, por Ana Paula Ferraz (poeta integrante do Coletivo Vacamarela e jornalista formada pela PUC-SP)

* para maiores informações e esclarecimentos mande um e-mail para nuernberger@terra.com.br

sábado, outubro 20, 2007

Dois trechos de Elisa

Esta semana apresentamos a poeta Elisa Andrade Buzzo. Ela é membro do conselho editorial d'O Casulo, revisora e uma das responsáveis pela assessoria de imprensa do nosso jornal. Incansável, co-edita também a revista Mininas e mantém uma coluna no site Digestivo Cultural. Além de tudo, ainda possui um blog pessoal chamado Calíope. Os poemas em prosa publicados aqui estão publicados nas antologias Cuatro poetas recientes del Brasil (Buenos Aires: Black&Vermelho, 2006) e Oitavas (São Paulo: Demônio Negro, 2006), respectivamente. Como conhecedor de seu livro de estréia afirmo com bastante prazer que sua poesia tem se refinado cada vez mais nos últimos tempos. Aproveite estes dois poemas recentes que, quem sabe, constarão no próximo livro da poeta.


Trecho de e-mail a Elias

embora eu não sorrisse, se clarificava uma felicidade íntima em percorrer a rua, nas costas a mochila, na mão esquerda, apoiados contra o peito, alguns livros, na mão direita uma sacola de plástico com uma lasanha à bolonhesa congelada, já começando seu processo de derretimento; se a água escorresse, poderia refrescar as milhares de cabeças que formigavam no calor de 30º, ou mais, da cidade; o mundo num lilás macio passava através das lentes dos óculos de sol, onde me refugio entranhada na segurança do escuro fresco; tamanha era a satisfação em dobrar os quarteirões, as chinelas havaianas azuis claras massageando a calçada irregular, geografia insólita do grande rosto da Terra retorcido de feições acumuladas, imprimindo nos meus pés sua deformidade; luzidia, não ria.

(Cuatro poetas recientes del Brasil, Buenos Aires, Black&Vermelho, 2006)





Ondulações

No entortado da letra forjo a cidade em palavras mata-borrões. Mancha gráfica é a cidade que imprimo fora de cores na noite. No limite negro-azul entre ela e a madrugada, os autos não respeitam os sinais no horizonte. Cada buraco, cada reentrância oscilante – fratura no asfalto – na qual indiretamente me deito e logo depois sou alçada. Um observador externo certamente veria as gorduras das bochechas e dos peitos tremendo. Sobressai minha caligrafia tremida sobre a noite amortecida; ressaltam-se sinais, rugas, sulcos gelatinosos. Na velocidade da luz noturna, o ônibus bóia no espaço, sou parte dessa estrutura que levita. Ele sobe tão rápido que minha escrita se descompassa, as fachadas de metal das lojas tornam-se um risco cinza de grafite definitivo. Escrevo as cenas que desabrocham na noite, como as camélias brancas desprendem um aroma doce e enérgico. A tentativa de reter essa fragrância é inexpressiva. Na noite quente de primavera, grilos esperneiam – e a cidade omite os insetos nas verduras. A escuridão fresca absorve a tinta da caneta: papel-chupão. Existe um momento na madrugada paulistana em que o atrito se desfaz das ruas. E as letras escorrem tranqüilas e macias.

(Oitavas, São Paulo, Demônio Negro, 2006)

Elisa Andrade Buzzo é jornalista, co-edita a revista de literatura e artes visuais Mininas e tem coluna no site Digestivo Cultural. Seu primeiro livro de poesia é Se lá no sol (7Letras, 2005). Ainda em livro, participa das coletâneas Oitavas (Demônio Negro, 2006), Cuatro poetas recientes del Brasil (Black&Vermelho, 2006) e Caos portátil, poesía contemporánea del Brasil (El Billar de Lucrecia, 2007).

quinta-feira, outubro 11, 2007

Sarau temático na Alceu Amoroso Lima

O coletivo Vacamarela realizará em outubro e novembro saraus temáticos na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Os temas serão escolhidos por alguma data representativa comemorada em cada um dos meses. Dia 19 de outubro às 19h30 será o primeiro sarau da série e celebrará o Dia das Crianças. A entrada é gratuita e as participações são muito bem-vindas.




quinta-feira, outubro 04, 2007

Andréa Catrópa, prosadora

Esta semana, temos o prazer de publicar a poeta e mestre em Teoria Literária pela USP, Andréa Catrópa. Ela é co-editora da versão impressa do jornal O Casulo, participa da organização do blog, das oficinas literárias nas escolas públicas, da seleção dos poemas e tantas outras atividades. Sua incansável dedicação a literatura contemporênea, desde o tempo da revista Metamorfose (editada na época de sua graduação em Letras/USP, início de sua parceira com Eduardo Lacerda), é digna de saudação. Esta publicação é, portanto, cheia de referência pessoal mas nunca ignorando a qualidade literária. Apesar de possuir uma produção de poemas bem conhecida, publicaremos aqui um pequeno conto de sua autoria. Salto sem rede de proteção? Arrisquem-se também expondo comentários.



mãe

Minha mãe entrou pela porta, apressada como desde que a conheci, contando detalhes de sua ida ao supermercado. Antes de entrar, sempre tocava a campainha repetidas vezes. Era inútil tentar abrir a porta. Quando procurávamos virar a chave, ela já havia achado a sua e, do lado oposto, bloqueava a fechadura. Ao primeiro passo na sala, já nos chamava, afobada, às vezes rindo, às vezes com ódio de alguma cotidiana desventura comercial. Aumentaram o preço do alho, uma velha malcriada roubou o último pedaço de filé que já estava em meu carrinho. Não importava de que tarefa nos ocupássemos, nós que ficamos. Sua entrada era um evento que exigia atenção e um eventual pedido de silêncio era tratado com total descaso. Que tudo parasse, pois ela tinha algo para contar, uma informação a partilhar e tudo podia ser agora. Sua pressa era indefinida pelo relógio. A correria do café da manhã. Depois do almoço. E do jantar. A hora de levar as crianças na escola. A hora de buscar.Era um contínuo de desventuras a que se devotou, pois tudo tinha para ela um pesar quase religioso.
Entrou e era uma entrada sonora. Com barulho de moedas, roçar de sacos plásticos, e um ou outro palavrão quando algo caía. Nesse caso, dependendo do humor, quem mais estivesse perto da porta seria o culpado por não tê-la ajudado. Na sala, tudo ia caindo ao chão, desenhando um rastro até a cozinha. De lá, resoluções ditas em voz alta para si e para os outros. O almoço precisava sair rápido, estava tudo atrasado.E isso se repetia. Todos os dias saía, voltava, mesma hora.
Cotidiano marcado. Sugestões de mudança eram afastadas com protestos. Como poderia se adiantar, se precisava esperar que acordássemos para nos dar o café? Ela estava de pé desde as sete e meia, desde as SETE E MEIA. Inútil explicar que podíamos tomar o café sozinhos, ou ajudar no almoço. Ela estava com pressa ela estava cansada ela estava sozinha. Reclamava enquanto mexia os ovos, fritava a cebola. Depois recontava o mesmo evento que já tinha contado. Ela desconhecia o silêncio ou não queria voltar a encontrá-lo.
Anos de repetição talvez tenham criado ecos. Minha mãe entrou na sala como sempre, ainda que estivesse longe daqui. Olhei para a porta fechada. É estranho não querer quem amamos.



Andréa Catrópa é mestre em Teoria Literária e uma das editoras do jornal de literatura contemporânea O Casulo. Integra a coletânea 8 femmes e seu primeiro livro de poemas Linha d’água está no prelo.

sábado, setembro 22, 2007

OVELHA NEGRA (Black Sheep): Uma antologia de poesia da escócia do século XX

No dia 27 de outubro, às 20:30h, na Sala Cultura Inglesa do Centro Brasileiro Britânico (Rua Ferreira de Araújo 741 3º andar; São Paulo SP; fone 3095 4466) haverá o lançamento do livro "Ovelha Negra", a primeira antologia de poesia escocesa disponível no Brasil, edição bilíngüe com a seleção se 13 poetas 13 poetas escoceses doséculo XX: Hugh MacDiarmid, Norman MacCaig, Edwin Morgan, George Mackay Brown, Ian Hamilton Finlay, Alastair Reid, Stewart Conn, Douglas Dunn, LizLochhead, Tom Leonard, Jackie Kay, Dilys Rose e Richard Price. A antologia, da Lumme Editor e apoiada pelo Scottish Arts Council e Cultura Inglesa, tem tradução integral da poeta Virna Teixeira, autora dos livros "Visita" (7Letras, 2000) e "Distância" (7Letras, 2005). Para anteciparmos um pouco o lançamento desta quinta-feira, que terá participação de Christopher Mack e apoio da St Andrew's Society, publicamos agora três poemas de Douglas Dunn, presentes na antologia, e suas respectivas traduções:

Modern Love
It is summer, and we are in a house
That is not ours, sitting at the table
Enjoying minutes of a rented silence,
The upstairs people gone. The pigeons lull
To sleep the under-tens and invalids,
The tree shakes out its shadows on the grass,
The roses rove through the wilds of my neglect.
Our lives flap, and we have no hope of better
Happiness than this, not much to show for love
But how we are, or how this evening is,
Unpeopled, silent, and where we are alive
In a domestic love, seemingly alone,
All other lives worn down to trees and sunlight,
Looking forward to a visit from the cat.



Amor Moderno
É verão, estamos em uma casa
Que não é nossa, sentados à mesa
Desfrutando minutos de silêncio alugado,
Os hóspedes de cima partiram. Os pombos embalam
o sono das crianças e dos inválidos,
A árvore sacode suas sombras na grama,
As rosas vagueiam no agreste da minha negligência.
Nossas vidas oscilam, e não temos esperança de melhor
Felicidade que esta, não tanto para demonstrar amor
Mas como estamos, ou como está essa noite,
Despovoada, silenciosa, e onde estamos vivos
Em um amor doméstico, parecendo sós,
As outras vidas desgastadas de árvores e luz do sol;
Esperando ansiosas por uma visita do gato.



Men of Terry Street
They come in at night, leave in the early morning.
I hear their footsteps, the ticking of bicycle chains,
Sudden blasts of motorcycles, whimpering of vans.
Somehow I am either in bed, or the curtains are drawn.
This masculine invisibility makes gods of them,
A pantheon of boots and overalls.
But when you see them, home early from work
Or at their Sunday leisure, they are too tired
And bored to look long at comfortably.
It hurts to see their faces, too sad and too jovial.
They quicken their step at the smell of cooking,
They hold up their children and sing to them.



Homens da Terry Street
Eles chegam no período noturno, partem de manhã cedo.
Escuto seus passos, o clangor das correntes de bicicleta,
Bombas súbitas de motocicletas, choramingar de vans.
De certo modo estou na cama, ou com as cortinas puxadas.
Esta invisibilidade masculinas os torna deuses,
Um panteão de botas e macacões.
Mas quando você os vê, em casa logo após o trabalho
Ou no seu descanso de domingo, estão cansados demais
E entediantes de se observar por muito tempo.
Dói enxergar suas faces, tão tristes e tão joviais.
Eles apressam o passo com o cheiro da comida,
Levantam suas crianças e cantam para elas.



Love poem
I live in you, you live in me;
We are two gardens haunted by each other.
Sometimes I cannot find you there,
There is only the swing creaking,
that you have just left,
Or your favourite book beside the sundial.



Poema de amor
Eu habito em você e você em mim;
Somos dois jardins assombrados pelo outro.
Às vezes não consigo encontrar você ali,
Há somente o balanço rangendo,
Logo após sua partida,
Ou seu livro favorito atrás do relógio de sol.


Douglas Dunn nasceu em 1942 em Inchinnan, Renfrewshire. Trabalhou como bibliotecário, estudou inglês na Universidade de Hull, e desde 1991 é professor do departamento de literatura escocesa na Universidade de St Andrews. Recebeu diversos prêmios literários. Contribui regularmente como ensaista em diversas revistas e jornais, tais como Glasgow Herald, the New Yorker e o the Times Literary Supplement. Além de poeta e prosador, tem editado várias antologias e estudos de crítica literária.

Virna Teixeira, tem dois livros de poesia publicados ("Visita" e "Distância", 7 Letras), foi bolsista Chevening do British Council, morou em Edimburgo por 2 anos, e recentemente organizou e traduziu o livro “Na Estação Central” do poeta escocês Edwin Morgan (editora UnB).

Lumme Editor em diálogo com as tradições erudita e popular publica romances, contos, ensaios, poesia, livros de arte, mitologia e folclore, além de manter um programa para publicação de novos autores e autores latino-americanos.

sexta-feira, setembro 14, 2007

DOIS MUGIDOS


Tradução de Fábio Aristimunho Vargas

Apesar do atraso, continuamos nossas publicações. Escolhemos, para esta semana, um poeta "prata da casa", conselheiro editorial d'O Casulo, organizador da FLAP e co-fundador do Vacamarela. O poeta Fábio Aristimunho Vargas, autor Medianeiro (Selo Quinze & Trinta, 2005). No entanto, aqui será exposta uma outra faceta de Fábio: o tradutor português, espanhol, catalão e galego que publuca, exporadicamente no blog Medianeiro. Mais inusitado que suas ótimas traduções para o português é o processo inverso: tradução para o espanhol de um famoso poema de Fernando Pessoa.


MAR PORTUGUÉS
Tradução de Fábio Aristimunho

Oh mar salado, ¡cuánto de tu sal
son lágrimas de Portugal!
Te cruzamos: cuántas madres lloraron,
cuántos hijos en vano oraron…
¡Cuántas novias se quedaron solteras,
oh mar, para que nuestro fueras!

¿Y valió? Vale todo que se empeña
si el alma no es pequeña.
Si uno traspasar quiere el Bojador
hay que traspasar su dolor.
Dios le dio el abismo y el riesgo al mar
– y al cielo le hizo reflejar.



*



MAR PORTUGUÊS
Fernando Pessoa


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso , ó mar!

Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor .
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fábio Aristimunho Vargas é advogado, poeta e tradutor. Formado em Direito pela USP. Autor do livro Medianeira (Quinze & Trinta, 2005). Foi presidente da Academia de Letras da FDUSP (1999/2000). Mantém o blogue Medianeiro: medianeiro.blogspot.com. Mora em São Paulo.


Fernando Pessoa é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa tendo seu valor comparado ao de Camões. Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando e estudando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura, onde desdobrou-se em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia. Nasceu em Lisboa, capital de Portugal, em 13 de junho de 1888 e morreu 30 de novembro de 1935 na mesma cidade.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Coleção Caixa Preta

Primeiras palavras da caixa preta...



terça-feira, setembro 04, 2007

Depois do “poemão” por Débora Racy Soares

Prosseguindo com as publicações semanais: a contribuição, dessa vez, é de Débora Racy Soares, que elabora uma tese de doutorado sobre Cacaso. Sugerimos uma breve comparação sobre a geração do referido poeta e a atual geração de poetas. Acredito que o texto seja muito rico e pode alimentar boas reflexões sobre a poesia. Comentários em aberto (e agradecimentos a Débora).

Depois do “poemão”: a poesia hoje

Cacaso costumava dizer que todos os poetas de sua geração estavam escrevendo um “poemão”, isto é, um único poema coletivo, a mil mãos. Os sentidos desse “poemão”, se desdobrados, alcançam dimensões que transcendem a esfera estética. Nos anos de setenta, a idéia de uma escrita coletiva não passava ao largo da poética com envergadura política: escrever era resistir à paralisação institucional. Pôr em ação um “poemão” significava, a priori, contestar várias esferas de poder. Um dos alvos era o “restrito e restritivo” sistema editorial que, diante do “boom” de poetas, não tinha “vagas suficientes” para absorver a produção excedente. Essa espécie de transbordamento poético fez com que os poetas “imaginassem saídas” e “ficassem mais inventivos”. A edição independente dos livros de poesia, à margem das editoras, surgiu como resposta a um quadro de época. Atualmente a situação editorial não é muito diferente, embora, com as novas tecnologias, tenha ficado mais fácil divulgar poesia. Há, porém, quem acredite que a poesia será sempre marginal. Às perfomances poéticas de setenta, aos saraus literários e à divulgação dos poemas em jornais e revistas, acrescentam-se hoje os https pessoais e os blogs. Alguns dos “marginalizados” de setenta tiveram seus livros publicados pelas editoras, em meados de oitenta, o que contribuiu para o conhecimento de suas obras e para a criação de uma espécie de cânone marginal. Embora isso pareça um contra-senso, é preciso reconhecer que os poetas contemporâneos estabelecem um diálogo frutífero com alguns poetas de setenta que sobreviveram às intempéries iniciais e seguem escrevendo e divulgando seus poemas, agora pelas vias tradicionais.
Débora Racy Soares é doutoranda em Letras pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas).

terça-feira, agosto 28, 2007

3 inéditos de Claudio Daniel

Seguindo a linha editorial do mês de agosto, deveríamos expor alguns poemas de Angélica Freitas (publicado no impresso número 6). No entanto, respeitando a poeta, desistimos de reproduzir os poemas de seu livro e aguardaremos algum inédito que a agrade. Os curiosos podem, além de ler O Casulo, procurar seu Rilke Shake, editado pela coleção Ás de colete.
Por isso, esta semana, temos a honra de publicar trêpoemas de Claudio Daniel ainda inéditos, que fazem parte do novo livro, em processo de criação, Fera Bifronte. Agradecimentos especiais ao poeta que, desde as primeiras edições, mostrou-se solícito, colaborando em diversas ocasiões com o jornal, ora com ensaios, ora com seus próprios poemas.
?

Animal metafísico desliza aspereza
até abolição de vocábulos.
Uivos óticos;
patas enviesadas;
fileiras assimétricas
de vértebras,
códices de enigmas ósseos.
Em branco aniquilar
sua mandíbula,
aberta como fenda sexual
interrogante.
Flora esquelética no pelame,
rarefeita desde os tufos
da cabeça,
um mofar de paisagem
desnudante.
— Seqüência numérica tatua seu dorso
improvável, circunscrito
à descentrada geometria.
Olho-de-raio persegue desfocados
passos súbitos
num deslocamento
de vermelhos.




PONTO

áspera paisagem de linhas
retorcidas
como ferros
de uma paisagem
amorfa.
desavença de cores
no espelho retrovisor;
cicatrizes alinhadas
nos pulsos, em desenhos
de fetos inanes.
esquinas meretrizam
esqueléticos ângulos
na noite desfocada.
unhas negras, peitos brancos,
hora sem cor,
autofágica garganta absorve
o asco de tudo.



CARANGUEJO

aquática paisagem, faixas de areia e uma seqüência de morros, horizonte simulando música. quiosques vendem camarões e mariscos. meninos magros e morenos jogam bola com uma cabeça decepada. a velha senhora inglesa lê o herald tribune com lentes bifocais. o sorveteiro anuncia profecias apocalípticas. há um furacão nas ilhas fidji. esferas planas surgem no céu de okinawa, como pegadas de urso. um sargento aposentado em kansas conversa com os peixes. não há nada que seja realmente absurdo. tudo está escrito em algum lugar, nas tábuas de esmeralda, no popol vuh, no livro tibetano dos mortos. há quem diga que a espuma no oceano é uma linguagem. há uma lógica irrefutável no movimento dos astros. o destino foi escrito nas palmas de nossas mãos. tudo isso ignoro, não me diz respeito; palavras são detritos como algas, conchas ou brincos oferecidos à deusa das águas. eu só deslizo as pinças entre possibilidades. invisto minha carapaça vermelho-marrom, que você tanto ama, até o centro da dúvida, para encontrar minha fábula. eu sou a imagem deste enigma, a contradição de um crustáceo

Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, Romanceiro de Dona Virgo (Lamparina, 2004) e Figuras Metálicas (Perspectiva, 2005). Blog: Cantar a pele de lontra.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Ronald Polito

Continuamos com a publicação eletrônica dos poetas presentes na edição 6 do jornal. Hoje publicaremos alguns poemas visuais de Ronald Polito, da série intitulada Uns Tipos (2007). Esses poemas minimalistas propõem um novo olhar perante caracteres operacionais, usados diariamente por milhares de pessoas. Os olhos viciados, acostumados a ver os objetos em sua dimensão informativa (onde & equivale a partícula aditiva "e"; % equivale a porcentagem; etc) podem se assombrar com os novos significados que esses objetos adquirem sobre a nomeação do poeta. Surpreso?









Ronald Polito é mineiro e nesceu em 1961. Além de ser poeta, é também editor e tradutor. Entre seus livros estão Solo (Sette Letras, 1996), Intervalos (7Letras, 1998), De passagem (Nanquim Editorial, 2001) e Terminal (7Letras, 2006).

terça-feira, agosto 14, 2007

Marcelo Montenegro

Agora, depois do bem sucedido lançamento do Casulo nº 6 é a vez do blog receber uma carga de ânimo e se revitalizar. A idéia é usar este espaço para expor poemas, mini-contos, traduções, pequenos ensaios, apontamentos incisivos e outros textos de qualidade ainda não publicados e capazes que gerar um debate saudável sobre a literatura atual. Todas as terças teremos uma publicação nova e, claro, contamos com a participação de todos os leitores através dos comentários. Esperamos, assim, que a discussão literária seja ampla e democrática.

Para esta primeira publicação escolhemos o poeta Marcelo Montenegro que está na nova edição impressa do jornal e comparece aqui com outros poemas.

poema estatístico


Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um email anotado às pressas no canhoto do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.

Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes Charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema del arte, evitando ser atingido
por alguma conversa perdida.

Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.

grutas


À paisagem gravitam
Nas grutas do invisível
Pequenas ou grandes coisas
Que não se explicam

E aparecem
E passam
Evaporam
E chovem no meio do mar

A gente nunca sabe a hora
E é sempre a hora exata

De se olhar

velhas variações sobre a produção contemporânea

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele
texto enquanto lota o especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma mão
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro, agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que não deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém no quinto sono
deve estar virando para o outro lado,
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

robert creeley band

Monga, a mulher-gorila:
na dúvida, rindo da Vida;
aqui, grudada no corpo,
como uma calça jeans
encharcada de chuva –
A preparação do salto
na cabeça do cervo morto.

A musa fatiada na véspera
do mágico – E o jeito encantador
com que a executiva
mexe o canudo
no copo de suco.

Na quermesse dos sentidos,
onde a noite troca de pele
com o dia – O céu esfolado,
anjos em velocípedes –
A esfirra que sobra
na lanchonete que fecha –
Onde o espanto
lustra seus rifles.

making of

Acabar com toda gentileza
E concluir minha própria temporada de caça
Parar de me arriscar
Dar o fora da minha natureza
Esganar essa ternura metida a besta
Sabotar a causa
Mutilar a festa
Desistir do que penso
Psicografar meu riso
Sancionar meu egoísmo
Panfletar este silêncio
Cultivar uma plantação de morcegos
E no meu alfabeto maluco de medos
Apagar de uma vez por todas
Todos os aposentos da delicadeza
Estuprar essa leveza
Destituir-me desta maldita mania
De sempre esquecer
Uma luz acesa

Marcelo Montenegro (São Caetano do Sul, 1971) é autor de “Orfanato Portátil” (Atrito Art Editorial, 2003). Têm poemas e outros textos publicados nos principais sites e revistas literárias do país. Ao lado dos músicos Marcelo Schevano (piano), Flavio Vajman (gaita), Marcello Amalfi e Fábio Brum (guitarras), criou o espetáculo “Tranqueiras Líricas”, apresentado, entre outros, no Sesc Pinheiros, Galeria Olido, Biblioteca Alceu Amoroso Lima, Galeria Virgílio e Casa das Rosas. Participou do projeto “Poesia na Idade Mídia”, no Itaú Cultural (Ago/2005), que reuniu 8 poetas brasileiros (Celso Borges, Frederico Barbosa, Rodrigo Garcia Lopes, Artur Gomes, Chacal, Ademir Assunção e Ricardo Aleixo) que viraram referência nesta intersecção entre literatura e música no palco. No mesmo lugar, em 2006, integrou o “A(u)tores em Cena”, com escritores contemporâneos sendo dirigidos por diretores de teatro. É roteirista e editor de vídeo e membro do grupo de teatro Cemitério de Automóveis onde opera luz e sonoplastia.

sábado, agosto 11, 2007

O Casulo, número 6

Ontem, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima abriu suas portas para o lançamento do Casulo nº6. Durante algumas horas da noite, o anfiteatro recebeu um público disposto a ouvir poetas de diferentes estilos e inclinações e acolher a apresentação pública do coletivo de poesia Vacamarela, formado por jovens poetas (alguns dos quais, responsáveis pelo Casulo) que pretendem contribuir um pouco mais à cena literária contemporânea.

Após uma rápida apresentação de Frederico Barbosa, responsável pela organização de eventos da Biblioteca, o lançamento teve a participação especial do poeta Marcelo Montenegro lendo alguns de seus textos publicados nesta edição do jornal (em breve mais poemas do Marcelo, aqui no blog). O evento prosseguiu com a leitura intitulada sarau da Vacamarela: os atores Celso Borges e Carol Martins interpretando poemas de integrantes do coletivo Vacamarela com a intervenção musical, mais que bem-vinda, do músico Rafael Agra.

O violonista Vinix Leite contribuiu com seu pocket-show acompanhado por palmas do público. A música continuou em alto nível com Kadu Ayala que manteve os espectadores no mesmo entusiasmo. E, para encerrar com chave de ouro, um sarau aberto que contou com a presença de poetas já conhecidos do público e também de (ainda?) desconhecidos que resolveram esquecer da timidez e subir ao palco. Esperamos todos, e mais novos, nos próximos eventos!


O jornal foi distribuído de maneira satisfatória, sem esquecer que esta edição também será distribuída em escolas públicas da cidade de São Paulo e pretende estimular a leitura e produção de poesia nos jovens estudantes, através de oficinas literárias e do concurso "Saia do Casulo" que logo serão devidamente comentados.

terça-feira, agosto 07, 2007

Lançamento do Casulo nº 6 + sarau vacamarela

Contagem regressiva para o Lançamento do jornal O Casulo nº 6 + sarau vacamarela!!!

O evento, que acontece esta sexta, dia 10 de agosto, a partir das 19h30 na Biblioteca Alceu Amoroso Lima — R. Henrique Schaumann, 777 (esquina com Cardeal Arcoverde) —, será a primeira apresentação pública do grupo vacamarela — formado por jovens poetas — e contará com a participação de atores e músicos que, de alguma maneira, se aproximem da produção literária contemporânea.

Na ocasião, haverá distribuição gratuita do número 6 do jornal O Casulo que, nesta edição, traz uma entrevista com Zeca Baleiro, poemas de Angélica Freitas, Marcelo Montenegro e Ronald Polito, e imagens de Luli Penna e Francisco dos Santos.

E, sendo O Casulo um jornal que abre espaço para novos poetas, a partir das 21h15 o sarau será aberto ao público. Para se inscrever, procure um representante do grupo vacamarela na entrada do auditório da Biblioteca. As inscrições só acontecerão no dia do lançamento a partir das 19h00 e a ordem de leitura obedecerá a ordem de inscrição!

Segue abaixo a programação:

  • 19h30 - abertura com o poeta Marcelo Montenegro.
  • 20h00 - sarau vacamarela (Celso Borges e Carol Martins lêem poemas do grupo vacamarela com intervenções do músico Rafael Agra).
  • 20h30 - dois pocket-shows com os músicos Kadu Ayala, e depois, Vinix Leite.
  • 21h15 - sarau aberto ao público. Para participar, inscreva-se na entrada do auditório.

Divulguem a vontade !!!

domingo, agosto 05, 2007

ESTADÃO DE HOJE | caderno 2

Os preparativos para o lançamento d'O Casulo nº 6 já começaram. Confiram a matéria que saiu no Caderno 2 do jornal o Estado de São Paulo, na versão impressa e também na digital.

Em breve mais novidades sobre a nova edição do jornal.

Poemas contemporâneos impressos em jornal

O Casulo, idealizado por alunos da graduação e mestrado da USP, chega à 6.ª edição e lança concurso

Livia Deodato

Preciosos poemas contemporâneos estão guardados n'O Casulo, jornal de literatura elaborado por alunos da graduação e do mestrado dos cursos de letras, direito e jornalismo da Universidade de São Paulo (USP). Na próxima sexta-feira, às 20 horas, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (R. Henrique Schaumann, 777, tel. 3082-5023), está marcado para ocorrer o lançamento do 6º número do jornal, que traz poemas de Angélica de Freitas, Marcelo Montenegro e Ronald Polito, além de uma entrevista com o músico maranhense Zeca Baleiro. As ilustrações são de Luli Penna e de Francisco dos Santos.

Graças ao apoio do projeto de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), da Secretaria da Cultura da Prefeitura de São Paulo, essa mais nova edição de O Casulo alcançou uma tiragem de 30 mil exemplares contra 2 mil do último número, publicado em março/abril. Eles serão distribuídos gratuitamente em 88 bibliotecas, 150 escolas de ensino médio, entre municipais e estaduais, e 23 Centros Educacionais Unificados (CEUs). "Com o apoio da Prefeitura, ainda iremos oferecer 20 oficinas de criação literária em setembro, com 2 horas de duração cada uma", adianta um dos editores do jornal, Eduardo Lacerda. As oficinas buscam servir de base para formação de multiplicadores e o foco estará voltado para autores contemporâneos, "para a literatura de quem está produzindo hoje", nas palavras de Lacerda, "que aproximam mais os jovens".

"Às vezes saio do cinema/E me ponho a andar/Cartografia pessoas/Apenas olhar/Ter a leve impressão/De que a cidade está grávida/De um outro lugar", diz Matinê, um dos sete poemas do paulista de São Caetano do Sul Marcelo Montenegro, que colore a mais recente edição de O Casulo. Ou ainda "Esse tempo não é teu./Nem nenhum./Capitula teu pacto unilateral./A tua combustão espontânea acelera./Esta é a fronteira entre dois desertos", do mineiro Ronald Polito, em Emblema.

Com o fomento de R$ 15 mil recebido através do projeto VAI será possível publicar também a próxima edição d'O Casulo, prevista para o fim do ano. E ainda promover o 1º Concurso Saia do Casulo, destinado a alunos do ensino médio da capital. "Selecionaremos de 3 a 20 poemas para publicarmos n'O Casulo, além de premiarmos os vencedores com livros doados pelas editoras Azougue, Escrituras e Lucerna, que já nos concederam 150 obras até o momento", conta o editor e também poeta. Para mais informações, escreva para ocasulo@gmail.com ou ligue no (11) 6104-8873.

A idéia da publicação é abrir caminhos para autores talentosos, a exemplo da advogada e poeta Ana Rüsche, que publica seus textos desde a 1ª edição d'O Casulo e recebeu, no ano passado, uma bolsa de criação literária por meio do Programa de Apoio à Cultura (PAC), da Secretaria de Estado da Cultura. Ela deve publicar seu romance Acordados até o fim deste ano.

Em novembro, a associação de escritores Vaca Amarela, alguns dos quais responsáveis pela edição d'O Casulo, vai lançar uma antologia de poemas numa edição trilíngüe (espanhol, inglês e português).

quarta-feira, junho 27, 2007

FLAP 2007

FLAP 2007: CONTAMINAÇÕES
Contato: flap@projetoidentidade.org
São Paulo:29 de junho. Casa das Rosas (Av. Paulista, n° 37)
30 de junho e 1º de julho. Espaço dos Satyros I (Pça. Roosevelt, nº 214)

Rio de Janeiro: 4 e 5 de agosto de 2007(programação em breve)
Realização: Projeto Identidade
Apoio: O Casulo, Casa das Rosas, Os Satyros & Sebo do Bac

PROGRAMAÇÃO
sujeita a modificações

Sexta-feira, 29 de junho
Aberto para Balanço: Leitura de Poesia Contemporânea
Casa das Rosas (Av. Paulista, nº 37)
Cada poeta lerá poemas de sua autoria e homenageará outros poetas.
19h: Apresentação: Frederico Barbosa
Abertura: Eduardo Lacerda e Thiago Ponce (ambos do Projeto Identidade)
Alfredo Fressia (Contador Borges e Fábio Aristimunho Vargas)
Antônio Vicente Pietroforte (Del Candeias e Delmo Montenegro)
Lilian Aquino (Andréa Catropa e Heitor Ferraz)
Cláudio Daniel (Eduardo Jorge e Adriana Zapparoli)
Maiara Gouveia (Cláudia Roquette-Pinto e Rodrigo Petrônio)
Fabiano Calixto (Benjamin Prado)
Horácio Costa (César Vallejo e Xavier Villaurrutia)
Paulo Ferraz (Donizete Galvão e Fábio Weintraub)

21h - Intervalo
Cláudio Willer (lê amigos)
Mavot, Cooperifa (Eduardo Lacerda e Sérgio Vaz)
Bruna Beber (Ana Guadalupe e Alice Sant'Anna)
Pedro Tostes (Maloqueiristas: Berimba de Jesus e Caco Pontes)
Dirceu Villa (Ana Rüsche e Ricardo Domeneck)
Ronald Polito (Carlos de Oliveira e Júlio Castañon Guimarães)
Ruy Proença (Antônio Moura, Eucanaã Ferraz e Rubens Rodrigues Torres Filho)
Sérgio Mello (Augusto Silva e Luana Vignon)

Sábado, dia 30 de junho
Espaço dos Satyros I, Pça. Roosevelt, nº 214
[1] 10h às 11:30h - Abre-alas: Contaminações
Mediação: Andréa Catropa, poeta - Antonio Vicente Pietroforte, escritor e Prof. Dr. Depto. Lingüística, FFLCH-USP- Glauco Mattoso, poeta - Anselmo Luis, o Bactéria - Marcelino Freire, escritor


[2] 13h às 14:30h - Turma do Fundão: A Literatura na Sala de Aula
Mediação: Ivan Antunes, poeta - Maria Elisa Cevasco, Profa. Dr. Depto. Letras Modernas, FFLCH-USP - Rodrigo Ciríaco, escritor e educador- Eduardo Araújo Teixeira, professor de literatura e meios audiovisuais- Adilson Miguel, editor de literatura juvenil - Eduardo Lacerda, editor de O Casulo - Jornal de Poesia Contemporânea

[3] 14:30h às 17h - E quem vive disso?
Mediação: Roberto Moreno, jornalista- Marcelo Siqueira Ridenti, Prof. Titular de Ciência Política, UNICAMP- Santiago Nazarian, escritor - Maria Luíza Mendes Furia, poeta- Andrea Del Fuego, escritora- Juliano Pessanha, escritor

Domingo, dia 1º de julho
Espaço dos Satyros I, Pça. Roosevelt, nº 214
[4] 12h às 13:30h - O Além Livro
Mediação: Del Candeias, poeta- Alberto Guzik, crítico, escritor e dramaturgo- Lourenço Mutarelli, escritor e cartunista - Mario Bortolotto, escritor e dramaturgo- Eduardo Rodrigues, escritor e roterista de quadrinhos

[5] 14:30h às 16h - Influenza: Soy loco por ti América
Mediação: Fábio Aristimunho Vargas, poeta e tradutor- Vanderley Mendonça, editora Amauta- Horacio Costa, poeta e Prof. Dr. Depto. Letras Clássicas- Maria Alzira Brum, tradutora e escritora- Alfredo Fressia, poeta e tradutor - Joca Terron, escritor

16h - Encerramento
Leitura de Marcelo Mirisola
Divulgação do vencedor do Concurso Sigla FLAP! 2007

Inscrições: Para participar da FLAP! não é preciso realizar inscrições prévias, respeitaremos a ordem de chegada do público.
Certificados: quem precisar de certificados deverá preencher ficha de cadastro na abertura dos debates (sábado, 10h). Os certificados serão entregues no encerramento do evento (domingo, 16h).

Dúvidas? Escreva para flap@projetoidentidade.org.CONCURSO DA SIGLA FLAP!: O que significa "F.L.A.P."? Deixe sua sugestão com os organizadores durante o evento! No domingo, a melhor sigla será premiada!

FEIRA DE LIVROS: Paralelamente ao evento será promovida uma feira de livros na Praça Roosevelt, do qual participarão várias editoras, oferecendo descontos a partir de 40%!

sexta-feira, junho 08, 2007

8 femmes + 12 de junho




Quer levar um tapa (e descobrir que seu amor é canalha), ou ganhar um beijo e comprovar a sensibilidade de seu par? Então, apareça no lançamento da plaquete 8 femmes, que reúne poemas de Ana Maria Ramiro, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Marília Kubota, Silvana Guimarães, Sílvia Chueire, Simone Homem de Mello e Virna Teixeira (organizadora). O evento começa às 20h, e as poetas irão ler textos.
Para mais informações, ligue 3826-7833 (AIC).

quinta-feira, maio 24, 2007

O BANQUETE
leitura de poesia brasileira contemporânea

ANA RÜSCHE
ANDRÉA CATRÓPA
ANNITA COSTA MALUFE
DANILO BUENO
DIRCEU VILLA
EDUARDO STERZI
FABIO WEINTRAUB
FABIANO CALIXTO
FABRÍCIO CORSALETTI
VERONICA STIGGER


30 de maio de 2007
CASA DAS ROSAS - 19H
AVENIDA PAULISTA, 37
PARAÍSO – SÃO PAULO
TEL: 3285-6986

quinta-feira, maio 03, 2007

Lançamento do Casulo 5 em Belo Horizonte


Sábado, 5 de maio, em BH

O espaço cultural LETRAS E PONTO convida
para a primeira edição do encontro LETRA VIVA


Curadoria: Mônica de Aquino
Convidados: Elisa Andrade Buzzo, Andréa Catrópa e Eduardo Lacerda

Participação especial: Ana Gusmão
Leitura de textos de Maria Esther Maciel, além de outros, escolhidos pelos convidados

Local: espaço Letras e Ponto, na rua Inconfidentes, 1169 – Savassi.

Data e hora: 05 de maio, às 11h.

sábado, abril 14, 2007

(re) lançamento do Casulo 5 - 15/04


Proposta de debate

Abaixo, a poeta Sandra Ciccone expressa discordância em relação à crítica ao seu poema "Beleza", que foi publicada no Casulo 5. Para que sua resposta faça sentido e possa ser debatida, publicamos também aqui o poema e o comentário a que se refere.
Bonde Errado do Thiago

Thiago Ponce em seu exercício de crítico literário atingiu apenas a superfície dos textos. Do poema "Beleza" ele diz: "que a proposição temática do poema é de importância pouca e de alguma fragilidade". Um tema não é em si frágil ou forte. Depende de como ele é desenvolvido. Se fosse assim, não precisaríamos ir ao cinema, ficaríamos apenas na sinopse. Foi o que ele fez. “Beleza” é um poema que expõe três versões dela mesma: a mulher e seus contornos, o homem e a força muscular como sinônimo de beleza, e a versão do terrorista suicida frente ao poder de destruição (que sua morte produz). Esse produto de destruição pode ser encarado por ele como uma forma de atingir o belo. Como se vê; é uma reflexão no mínimo atual. Não se trata de defender ou criticar a vaidade, a cirurgia, os anabolizantes, e o homem bomba, mesmo porque este não é o papel da poesia; mas de cutucar a questão.

BELEZA



até o papel de
pele da beleza
ser poder de seda
ter poder de poder
permanecer no
top of seduction
alguém se opera

até músculos serem
força
alguém se bomba
bela vitrine da
bomba de chocolate
belo esboço bronze
dorso

até nova ordem
ter poder de morte
alguém se explode
belo cinturão negro
belo alvo
despedaçado
(Sandra Ciccone Ginez)
Entre sons e sensações
Sabe-se, pois, que arte é o que é e, sendo, possui partes várias que são, numa peça tal, relevantes e imprescindíveis. Caminho, então, de encontro aos poemas de Ciccone - em minha tentativa de apresentar o que penso perceber na estruturação geral deste conjunto de Poemas que, de uma forma ou outra, lançam-se como sensações quando leio. Portanto, como leio, tenho imprecisas e vagas constatações, que não comprometem ou aprimoram o que vai escrito pela poeta.
Ao andar no que li pelo que li, digo da primeira sensação: a intenção da poeta é a sonoridade nos versos. Direi apenas que a intenção parece a de tentar criar o fugaz na escuta plástica dos versos, entrecortados, como estão, em falhas de algum jeito calculadas. Para exemplo aponto o poema Amazon, que mesmo sendo bastante discursivo desenvolve certa economia verbal; necessária para sustentar a amplitude da fala: "senha da selva é entrar/ camuflada/ com marcas do que/ não é cidade".
Outro exemplo é o poema Beleza. Sua velocidade intui a rapidez do contemporâneo: "até o papel de/ pele da beleza/ ser poder de seda/ ter poder de poder/ permanecer no/ alguém se opera/ top of seduction". Há de se perceber que a proposição temática do poema é de importância pouca e de alguma fragilidade; sendo assim, se perceberá o esforço de musicalidade que, por arranjo áspero, cria ruídos rítmicos que acompanham a fatalidade do som: a impossibilidade da conclusão no pensamento do que seja. Configura-se, pois, colocada de lado a temática, uma busca pela sensação de escape que o balbucio das palavras demarcam - o que é ainda a permanência da sensação moderna da anteescrita, muito usada pelos dadaístas.
Sensações. O que resta, então, da leitura dos poemas? Faria ressalvas, muitas; algumas por não saber ser crítico (como se entende por ora) e por me opor às intenções de superação ou aperfeiçoamento da literatura através da interposição de uma consciência alheia, fria e fraca. Outras ressalvas se fariam por ter de partir daqui para colocar o que se me coloca. Não existindo jeito ideal ou fuga, anuncio de pronto que estive a externar uma sensação de leitor de poesia, submetendo-me ao ler os poemas de Sandra Ciccone; estive, assim, a ler sensacionistamente, sem cair no banal do comparativo falho, no óbvio e no evidente de um comentarista.


Thiago Ponce de Moraes

sábado, março 31, 2007

Os excluídos dos "excluídos"

por Andréa Catrópa


Na última sexta-feira do mês de março, mais especificamente ontem, foi realizado aqui em São Paulo o debate Caminhos da Literatura Contemporânea. A mesa foi composta pelos professores Jorge de Almeida, Roberto Zular e Ana Paula Pacheco e pela editora Camila Diniz, com mediação do poeta Frederico Barbosa.
Apesar dos vários pontos interessantes e provocativos levantados na ocasião, algo me chamou a atenção durante a fala da Professora Ana Paula Pacheco. Ao discorrer sobre alguns aspectos daquilo que se convencionou chamar de Literatura Marginal (expressão aplicada à prosa de autores como Paulo Lins e Ferréz), também usou o termo “literatura dos excluídos”. Este termo foi o que me incomodou, talvez porque eu já entenda o termo “marginal” como um rótulo que por força do uso acaba dissimulando suas contradições.
Mas fiquei pensando, sem nenhum cinismo, quem são os excluídos? Um dos exemplos dados foi a Irene, do poema “Irene no céu” que, se não me engano, foi considerada representativa da passividade dos “excluídos” na literatura modernista. No entanto, o poema antes me parece mostrar o ponto de vista carregado de afetividade de um privilegiado, que talvez expie um pouco de sua culpa ao imaginar que, pelo menos no céu, Irene teria uma recepção digna. Considero que o exemplo dado da prosa de Alcântara Machado seria mais adequado à representação textual da voz de uma parcela da população marginalizada pelas classes altas.
No entanto, quando pensamos em um contexto contemporâneo, o que definiria o “excluído”: a etnia, a situação econômica, a profissão, o sexo ou a opção sexual? Qualquer uma desses fatores (por exemplo, ser prostituta), ou apenas quando aparecem combinados (ser prostituta negra)? E um indivíduo pode ser “excluído” no plano social (negro) e “incluído” na esfera literária (escritor reconhecido)?
Confesso que acho problemática a visão do ”excluído” estar sendo representada principalmente por homens heterossexuais, brancos ou negros. Já que estamos com um pé nos estudos culturais, onde se escondem as outras minorias? Porque isso me faz pensar: cadê os índios? E as mulheres da periferia, que sofrem com a discriminação misógina de muitos rappers e outros artistas que supostamente são os porta-vozes dos desprivilegiados? Eles e elas existem. Provavelmente fora do mapa literário.

O Casulo - nº 5

capa do Casulo nº 5 - fotomontagem de Carol Dimitrov


Confiram nesta edição impressa do Casulo mais textos dos 15 poetas - acompanhados das respectivas críticas que participam da seção
Toma lá dá cá, além da entrevista com o jornalista Ivan Marques, ensaios de Claudio Daniel e Iván García, e a prosa enxuta de Mario Rui Feliciani e Marcelino Freire.

Esperamos também que os leitores animem-se a ampliar o exercício crítico do jornal aqui no blog. Portanto, comentem, critiquem, debatam.